Sunday, 28 February 2021

Michel Giacometti, Fernando Lopes-Graça ‎– (Breve Antologia) Cancioneiro Popular Português (1981)

Genre: Folk, World, & Country 
Format: Cassette
Label: Círculo de Leitores 

Tracklist:
01.   José Embala O Menino
02.   Do Tronco Nasceu A Rama (Natal)
03.   Deus Nos Dê Cá As Boas-Festas (Janeiras)
04.   Senhora Santa Combinha (Canto De Romeiros)
05.   Vai-se O Dia, Vem A Noite (Moda Da Lavoura)
06.   Por Riba Se Ceifa O Pão (Cantiga Da Ceifa)
07.   Oliveiras, Oliveiras (Moda Do Varejo)
08.   Segadinhas, Segadinhas (Cantiga Do Linho)
09.   Tascadeiras Do Meu Linho (Cantiga Do Linho)
10.   Fiz Uma Aposta, Senhores (D. Mariana)
11.   Ofícios D'Aprender (Dança Dos Paulitos)
12.   Redondo (Dança)
13.   Por Baixo Di A Porta Hai Luz (Epitalâmio)
14.   Ai, O Vosso Devino Nome (Martírios)
15.   Senhora Do Almurtão (Canto De Romeiros)
16.   Ó Senhora Do Alívio (Rogativa)
17.   Recordai, Nobre Senhor (Oração Das Almas)
18.   Rula, Rula (Cantiga Das Sementeiras)
19.   Manhaninha De S. João (Romance Da Segada)
20.   Maçadeiras Do Meu Linho (Cantiga Do Linho)
21.   Ai, Ajuda-me, Ó Camarada (Cantiga Da Rega)
22.   Pur Beilar El Pingacho (Dança)
23.   Corridinho (Dança)
24.   Eu M'arrogo Prá Batalha (Do Auto Da Floripes)
25.   Ó Que Linda Pomba Branca (Canção Amorosa)

Teve o destino mais inverosímil, longe daquilo que os primeiros anos de formação e as consecutivas viagens que protagonizou fariam adivinhar. Michel Giacometti nasceu na Córsega em 1929. A infância e a adolescência viveu-as na Argélia (ainda colónia francesa). Mudou-se para Paris, fez parte de grupos de teatro itinerante e arriscou mesmo uma fugaz dedicação à poesia. Aos 30 anos visitou Portugal por “razões de ordem sentimental” – assim se lê na entrada com o seu nome na “Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX”. Depois de desventuras entre viagens e desamores, transformou–se no nome maior da etnomusicologia nacional. Hoje assinalam-se os 20 anos da sua morte, pretexto para a reedição (revista e ampliada) da série documental que gravou para a RTP entre 1970 e 72, “Povo Que Canta” (realizada por Alfredo Tropa), e de outros registos.

Diz-nos Francisco d”Orey, produtor da RTP que acompanhou as gravações dos documentários, que Giacometti “entendeu que a música tradicional é a do povo, a do camponês, não é como a música dos citadinos, que compram bilhetes para concertos e gastam dinheiro em CD”. Estudioso crónico, descobriu, através do Museu do Homem (Paris) e do livro “Folk Music and Poetry of Spain and Portugal”, (de Kurt Schindler) a motivação para se instalar em Portugal e percorrer o país de norte a sul com um gravador e um mapa de intenções.

O processo “Giacometti registou o verdadeiro folclore, não o folcloró”, diz-nos Francisco d”Orey. O antigo produtor recorda ranchos e outros colectivos como coisa “de antigo regime, que serviam para dar uma ilusão daquilo que era a música tradicional”. O que Giacometti foi descobrindo, nas diferentes regiões do país, foram “aqueles que são mais músicos que muitos que usam o mesmo título”. Ao “antropólogo”, como é recordado por d”Orey, foi revelado o valor da “preservação”, da insistência entre territórios que não eram os seus por natureza. “Dedicou a sua vida a recolher gravações de música tradicional sem grande apoios e com muitos sacrifícios. Passou mal, adoeceu, mas foi um exemplo de entusiasmo pela nossa cultura.”

Recordando o método, Francisco d”Orey fala-nos de um processo simples: “Íamos para o campo e entrávamos em contacto com as pessoas. Muitas vezes desconfiavam do homem da cidade. Mas quando viam que estávamos interessados naquilo criavam-se laços. Às vezes não, às vezes as coisas até acabavam mal. E não acreditavam em nós, no que queríamos fazer.” Estas ocasiões eram pouco habituais. A grande maioria das situações tinha um resultado bem diferente: “Quando se estabeleciam boas relações, gravávamos tudo o que era cantado em festas, romarias, no trabalho do campo ou enquanto as mães embalavam os filhos. Toda a música tinha uma função.”

Seguia-se uma segunda etapa, fundamental, a de avaliar e catalogar todas as recolhas com o compositor Fernando Lopes-Graça, uma aliança perfeita no cuidado e na análise do material em causa (os dois publicaram também, em 1981, o “Cancioneiro Popular Português”). Refere d”Orey que o compositor “conhecia bem a música portuguesa, os dois garantiam a selecção entre o que era legítimo e o que era resultado de contaminações”. As conclusões deste trabalho foram editadas na colecção de registos “Antologia da Música Regional Portuguesa”, os famosos discos de vinil com capa de sarapilheira que conheceram uma edição muito limitada. No início da década de 70, Giacometti regressou aos locais onde recolheu as suas gravações para a realização da série documental “Povo Que Canta”.

Tradição televisiva Paulo Lima, coordenador da reedição de “Povo Que Canta”, lembra as origens de Michel Giacometti enquanto pedagogo e divulgador da tradição portuguesa: “Em 1962/63, Giacometti tem o projecto de fazer uma série etnográfica. Realiza primeiro um filme em Portimão sobre a pesca da sardinha, ”O Alar da Rede”, com o cineclubista Manuel Rua.” O retrato filmado da faina acaba por fazer uso do som gravado por Giacometti um ano antes na mesma traineira. “Mais tarde fez um filme em Rio de Onor, uma aldeia de Bragança, com o apoio do Cineclube do Porto”, assinala Paulo Lima.

A série não teve continuidade mas descobriu segunda vida uma década depois, no ecrã da RTP. José Moças, responsável pela Tradisom, a editora que recuperou “Povo Que Canta”, afirma que “hoje não é possível repetir uma recolha destas, 75% destas canções já não existem assim, tão-pouco quem as cante”.

Aponta Armando Leça, Artur Santos e Ernesto Veiga de Oliveira como referências da etnomusicologia em Portugal e o espólio sonoro de José Alberto Sardinha como o maior “e um dos mais importantes de sempre” (será, aliás, alvo de edição discográfica “num par de anos”, também com selo da Tradisom). “Mas mais ninguém fez uma recolha tão exaustiva e completa das nossas tradições vivas”, diz.

este texto foi originalmente publicado na edição de 23 de Novembro do jornal ‘i’

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