Sunday, 28 February 2021

Michel Giacometti, Fernando Lopes-Graça ‎– (Breve Antologia) Cancioneiro Popular Português (1981)

Genre: Folk, World, & Country 
Format: Cassette
Label: Círculo de Leitores 

Tracklist:
01.   José Embala O Menino
02.   Do Tronco Nasceu A Rama (Natal)
03.   Deus Nos Dê Cá As Boas-Festas (Janeiras)
04.   Senhora Santa Combinha (Canto De Romeiros)
05.   Vai-se O Dia, Vem A Noite (Moda Da Lavoura)
06.   Por Riba Se Ceifa O Pão (Cantiga Da Ceifa)
07.   Oliveiras, Oliveiras (Moda Do Varejo)
08.   Segadinhas, Segadinhas (Cantiga Do Linho)
09.   Tascadeiras Do Meu Linho (Cantiga Do Linho)
10.   Fiz Uma Aposta, Senhores (D. Mariana)
11.   Ofícios D'Aprender (Dança Dos Paulitos)
12.   Redondo (Dança)
13.   Por Baixo Di A Porta Hai Luz (Epitalâmio)
14.   Ai, O Vosso Devino Nome (Martírios)
15.   Senhora Do Almurtão (Canto De Romeiros)
16.   Ó Senhora Do Alívio (Rogativa)
17.   Recordai, Nobre Senhor (Oração Das Almas)
18.   Rula, Rula (Cantiga Das Sementeiras)
19.   Manhaninha De S. João (Romance Da Segada)
20.   Maçadeiras Do Meu Linho (Cantiga Do Linho)
21.   Ai, Ajuda-me, Ó Camarada (Cantiga Da Rega)
22.   Pur Beilar El Pingacho (Dança)
23.   Corridinho (Dança)
24.   Eu M'arrogo Prá Batalha (Do Auto Da Floripes)
25.   Ó Que Linda Pomba Branca (Canção Amorosa)

Teve o destino mais inverosímil, longe daquilo que os primeiros anos de formação e as consecutivas viagens que protagonizou fariam adivinhar. Michel Giacometti nasceu na Córsega em 1929. A infância e a adolescência viveu-as na Argélia (ainda colónia francesa). Mudou-se para Paris, fez parte de grupos de teatro itinerante e arriscou mesmo uma fugaz dedicação à poesia. Aos 30 anos visitou Portugal por “razões de ordem sentimental” – assim se lê na entrada com o seu nome na “Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX”. Depois de desventuras entre viagens e desamores, transformou–se no nome maior da etnomusicologia nacional. Hoje assinalam-se os 20 anos da sua morte, pretexto para a reedição (revista e ampliada) da série documental que gravou para a RTP entre 1970 e 72, “Povo Que Canta” (realizada por Alfredo Tropa), e de outros registos.

Diz-nos Francisco d”Orey, produtor da RTP que acompanhou as gravações dos documentários, que Giacometti “entendeu que a música tradicional é a do povo, a do camponês, não é como a música dos citadinos, que compram bilhetes para concertos e gastam dinheiro em CD”. Estudioso crónico, descobriu, através do Museu do Homem (Paris) e do livro “Folk Music and Poetry of Spain and Portugal”, (de Kurt Schindler) a motivação para se instalar em Portugal e percorrer o país de norte a sul com um gravador e um mapa de intenções.

O processo “Giacometti registou o verdadeiro folclore, não o folcloró”, diz-nos Francisco d”Orey. O antigo produtor recorda ranchos e outros colectivos como coisa “de antigo regime, que serviam para dar uma ilusão daquilo que era a música tradicional”. O que Giacometti foi descobrindo, nas diferentes regiões do país, foram “aqueles que são mais músicos que muitos que usam o mesmo título”. Ao “antropólogo”, como é recordado por d”Orey, foi revelado o valor da “preservação”, da insistência entre territórios que não eram os seus por natureza. “Dedicou a sua vida a recolher gravações de música tradicional sem grande apoios e com muitos sacrifícios. Passou mal, adoeceu, mas foi um exemplo de entusiasmo pela nossa cultura.”

Recordando o método, Francisco d”Orey fala-nos de um processo simples: “Íamos para o campo e entrávamos em contacto com as pessoas. Muitas vezes desconfiavam do homem da cidade. Mas quando viam que estávamos interessados naquilo criavam-se laços. Às vezes não, às vezes as coisas até acabavam mal. E não acreditavam em nós, no que queríamos fazer.” Estas ocasiões eram pouco habituais. A grande maioria das situações tinha um resultado bem diferente: “Quando se estabeleciam boas relações, gravávamos tudo o que era cantado em festas, romarias, no trabalho do campo ou enquanto as mães embalavam os filhos. Toda a música tinha uma função.”

Seguia-se uma segunda etapa, fundamental, a de avaliar e catalogar todas as recolhas com o compositor Fernando Lopes-Graça, uma aliança perfeita no cuidado e na análise do material em causa (os dois publicaram também, em 1981, o “Cancioneiro Popular Português”). Refere d”Orey que o compositor “conhecia bem a música portuguesa, os dois garantiam a selecção entre o que era legítimo e o que era resultado de contaminações”. As conclusões deste trabalho foram editadas na colecção de registos “Antologia da Música Regional Portuguesa”, os famosos discos de vinil com capa de sarapilheira que conheceram uma edição muito limitada. No início da década de 70, Giacometti regressou aos locais onde recolheu as suas gravações para a realização da série documental “Povo Que Canta”.

Tradição televisiva Paulo Lima, coordenador da reedição de “Povo Que Canta”, lembra as origens de Michel Giacometti enquanto pedagogo e divulgador da tradição portuguesa: “Em 1962/63, Giacometti tem o projecto de fazer uma série etnográfica. Realiza primeiro um filme em Portimão sobre a pesca da sardinha, ”O Alar da Rede”, com o cineclubista Manuel Rua.” O retrato filmado da faina acaba por fazer uso do som gravado por Giacometti um ano antes na mesma traineira. “Mais tarde fez um filme em Rio de Onor, uma aldeia de Bragança, com o apoio do Cineclube do Porto”, assinala Paulo Lima.

A série não teve continuidade mas descobriu segunda vida uma década depois, no ecrã da RTP. José Moças, responsável pela Tradisom, a editora que recuperou “Povo Que Canta”, afirma que “hoje não é possível repetir uma recolha destas, 75% destas canções já não existem assim, tão-pouco quem as cante”.

Aponta Armando Leça, Artur Santos e Ernesto Veiga de Oliveira como referências da etnomusicologia em Portugal e o espólio sonoro de José Alberto Sardinha como o maior “e um dos mais importantes de sempre” (será, aliás, alvo de edição discográfica “num par de anos”, também com selo da Tradisom). “Mas mais ninguém fez uma recolha tão exaustiva e completa das nossas tradições vivas”, diz.

este texto foi originalmente publicado na edição de 23 de Novembro do jornal ‘i’

Saturday, 27 February 2021

José Mário Branco ‎– Ser Solidário (1982)

Genre: Folk, World, & Country
Format: CD, Vinyl
Label: EMI, Som, Warner Music Portugal

Tracklist:
1-01.   Travessia Do Deserto
1-02.   Queixa Das Almas Jovens Censuradas
1-03.   Vá... Vá...
1-04.   A Morte Nunca Existiu
1-05.   Fado Da Tristeza
1-06.   Fado Penélope
1-07.   Qual É A Tua, Ó Meu?
1-08.   Eu Vim De Longe, Eu Vou P'ra Longe (Chulinha)
2-01.   Inquietação
2-02.   Não Te Prendas A Uma Onda Qualquer
2-03.   Linda Olinda
2-04.   Treze Anos, Nove Meses
2-05.   Sopram Ventos Adversos (Maiden Voyage)
2-06.   Eu Vi Este Povo A Lutar (Confederação)
2-07.   Ser Solidário
2-08.   FMI (1ª E 2ª Partes)

Credits:
Producer – José Mário Branco, Trindade Santos

O que guardamos de um criador para além do resultado mais visível daquilo que cria?

À margem de livros, quadros, discos, coreografias, há outros objectos, fragmentos e elementos documentais que concorrem para o que viremos a conhecer como a obra de alguém e que, muitas vezes, são tão inacessíveis ao público como os processos mentais que originaram determinada criação. Há excepções, sob a forma de acervos ou espólios devidamente catalogados, muitas vezes guardados em fundações ou arquivos, que preservam esses testemunhos e os disponibilizam junto de investigadores e académicos, mas é pouco frequente que esses fundos documentais estejam acessíveis a qualquer pessoa que tenha curiosidade em conhecê-los.

Nome fundamental da música e da cultura portuguesas a partir da segunda metade do século XX, José Mário Branco tem discografia extensa, em nome próprio e com trabalhos de autoria colectiva. Álbuns como Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, Margem de Certa Maneira ou FMI acompanharam momentos muito intensos da história contemporânea portuguesa, da luta contra o fascismo aos anos quentes do início da democracia, e o passar do tempo confirmou esses e outros discos com a assinatura do autor como elementos fundamentais da cultura portuguesa de décadas recentes, quer no cânone musical, quer na memória colectiva. Agora, o Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical (CESEM), organismo que integra a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, dá um passo importante em direcção a uma maior apropriação colectiva desse património criado por José Mário Branco. Em parceria com o próprio músico, o CESEM criou um arquivo on-line que disponibiliza partituras, correspondência, anotações, fotografias e inúmeros outros documentos que permitem conhecer de outro modo o trabalho de José Mário Branco.

Para além da documentação associada aos discos assinados pelo músico, a solo ou em colectivo (como os do Grupo de Acção Cultural), deambular pelo Arquivo José Mário Branco permite conhecer ou redescobrir as inúmeras colaborações que o autor desenvolveu com outros músicos, tantas vezes como produtor, bem como os trabalhos feitos para televisão, cinema ou teatro. Partituras criadas para a peça Galileu Galileu, de Bertold Brecht, encenada por Carlos Avilez para o Teatro Experimental de Cascais, em 1986, para o filme Agosto, de Jorge Silva Melo, estreado em 1991, ou apresentadas no programa televisivo Notas Soltas, de 1984. Fotografias dos espectáculos realizados em 2001, com João Lóio, Regina Castro e Manuela de Freitas. Alinhamentos de concertos, horários de entrevistas, correspondência sobre projectos e espectáculos. E depois há as letras das canções, as que José Mário Branco gravou e as que criou para outros, tantos, bem como o alinhamento completo dos álbuns. Organizados por tipologia das fontes e pelas entradas que ajudam a estruturar o acervo (álbuns espectáculos, teatro, cinema, rádio, etc), os documentos permitem uma navegação intuitiva, mas igualmente uma pesquisa detalhada em função de interesses concretos.

Cumpre-se, deste modo, a intenção de disponibilizar o acervo de José Mário Branco para quem queira estudá-lo, ou estudar, através dele, aspectos concretos da história contemporânea portuguesa, mas também para quem pretenda deambular sem destino certo, respigando imagens, pautas, informações avulsas sobre o trabalho do autor. Foi esse o acordo firmado entre José Mário Branco e o CESEM, devidamente explicado na apresentação do site que alberga este arquivo: «No final do processo, foi acordado que estes materiais digitais, coerentemente organizados, seriam inseridos numa base de dados própria, para livre consulta em linha, concebida como instrumento auxiliar para o estudo, divulgação e reapropriação social da sua obra.» Reapropriemo-nos, então.


Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado originalmente na Revista Blimunda de junho de 2018.

Friday, 26 February 2021

Kyriakos Sfetsas - Greek Fusion Orchestra Vol.2 (2019)

Style: Fusion, Avant-garde Jazz, Free Jazz, Jazz-Funk
Format: CD, Vinyl, FLAC
Label: Teranga Beat 

Tracklist:
1.   Με Παραδοσιακό Τρόπο - On a Folk Mode
2.   Η Χήρα - The Widow
3.   40 Βήματα - 40 Steps
4.   Σέλιανη - Seliani
5.   Από Ξένο Τόπο - From a Foreign Land
6.   Σημάδια - Imprints
7.   Εναλλακτική Άποψη - Alternative Aspect

Credits:
Kyriakos Sfetsas - Composer, Director
Yannis Terezakis - Piano, Cembalo
Manthos Chalkias - Folk Clarinet, Alto Sax, Flute
Yorgos Manikas - Tenor Sax, Flute
Nikos Tatsis - Guitar, Electric Lute
Yorgos Theodoridis - Bass
Dimitris Marinakis - Drums, Percussion

TERANGA BEAT proudly presents Vol.2 of Kyriakos Sfetsas' 1976 "Greek Fusion Orchestra" project. Sfetsas' vision behind the formation of GFO, was to create a piece of work that would expand the boundaries of Greek traditional music. The result was a Progressive-Jazz Fusion masterpiece comprising complex and intriguing compositions, performed by Athens' best musicians of the day.

Following the success of Vol.1, Vol.2 is a compilation of musical pieces Sfetsas recorded with the group right upon the completion of the Vol. 1 material. Vol.2 is still reflective of his ambition of bringing together progressive jazz and traditional music, but it does so in a different manner. Although the element of traditional music remains present, it does not provide the compositional foundation for the songs (e.g. most pieces are no longer based exclusively on traditional musical forms). More jazzy and more complex than Vol.1, Vol.2 has a darker feeling, presenting Sfetsas not only as a musical experimentalist, but also as a demanding and distinctive composer, who truly puts his musicians through the test.

The recordings on this album are previously unreleased and form only a small part of his overall body of work with the GFO. The music was originally recorded Stereo on Reel Tape with highest standards for the time, with the modern mastering process highlighting even more their original sound quality. The result is a truly impressive and pure audiophile album, even slightly better than Vol.1 on that regard.

The LP version of the album is a Deluxe Edition and comes with a high gloss laminated gatefold cover, a printed insert and a digital download code. The CD packaging is Digipak with Slipcase, including a booklet with photos and liner notes outlining the story of the band members. 

King Crimson ‎– Discipline (1981)

Style: Prog Rock, Art Rock
Format: CD, Vinyl
Label: EG, Polydor, Warner Bros. Records

Tracklist:
1.   Elephant Talk
2.   Frame By Frame
3.   Matte Kudasai
4.   Indiscipline
5.   Thela Hun Ginjeet
6.   The Sheltering Sky
7.   Discipline

Credits
Chapman Stick, Bass Guitar, Backing Vocals – Tony Levin
Drums – Bill Bruford
Guitar, Lead Vocals – Adrian Belew
Guitar, Devices – Robert Fripp
All Titles Written By – King Crimson
Producer – King Crimson, Rhett Davies

1981 was a heck of a year for music. One of the shocks that it held for me was the shocking re-emergence of a band I’d only ever gotten into a few years earlier during my “Prog Phase.” In 1978 I was on a Prog tangent but didn’t manage to get too deep before I was distracted by the emerging Post-Punk phenomena. Nevertheless, while listening to FM Rock that year, I’d heard King Crimson [guess which track] and made a bee-line for that first album. While the mellotron antics of the title cut pointed to a group like The Moody Blues, the toughness [to put it mildly] of jazz damaged tracks like “21st Century Schizoid Man” didn’t reflect any previous parts of my musical diet. A few years later I bought a copy of “Starless + Bible Black” and found it to be my favorite KC album of the several I’d heard.

By 1979, I was all over Robert Fripp’s first solo album, the still amazing “Exposure.” Fripp was experiencing a vast lateral shift that saw his approach to Art Rock having a greater congruence with Post-Punk rather than the dying dregs of Prog. He even guested on Blondie records! Even so, the idea that he would ever re-form King Crimson was fairly inconceivable since the man gives off a rather severe aura. How could he ever backslide into a King Crimson reunion?

Ever so gently, it seemed. The new Crimson had begun their life as “Discipline” but over time, the band convinced Fripp that this was not just a new group, but new growth from the King Crimson root. Master drummer Bill Bruford had played on the last three KC albums. Bassist Tony Levin was known to Fripp by his playing on the first three Peter Gabriel albums. The wildcard was second guitarist and vocalist Adrian Belew, who came to prominence when Frank Zappa plucked him out of a hotel lobby and then it seemed everyone wanted a piece of him. Sessions and tours with Bowie and Talking Heads cemented his credentials and he was the busiest guitarist of this period as previously recounted here.

A friend gave me the “Discipline” album as a Christmas present and it’s been an astounding album from the first play to this very morning. To this day I can hear “Frame By Frame” and forget to breathe. But I’m getting ahead of myself. The album kicks off with “Elephant Talk” and from the moment the needle hit the PVC it was apparent that this was a King Crimson that wasn’t looking backward one iota. The opener reflected recent Talking Heads more than anything, due to the presence of Belew; fresh from that band’s acme “Remain In Light.” But vocally, he resembled David Byrne. Enough so that the rest of the Heads had asked Belew to front the band instead of Byrne. Belew correctly discerned that such an offer was very dangerous, so he wisely demurred.

“Elephant Talk” offered a newly funky Crimson that one could almost dance to if one wanted. Levin’s Chapman Stick work first graced my ears on the previous year’s jaw dropping Peter Gabriel album, so I was more than ready to hear him cut loose without any restraint. Bruford’s rhythmic fills were as ever, cut like fine diamonds. This was the sound of a band who had taken a look at their competition [primarily Talking Heads and Japan] taken stock and proceeded to blow them out of the water as only they could.

If “Elephant Talk” showed a loose and funky side of the group, then “Frame By Frame” burnished the group responsible for “Red” and “Lark’s Tongues In Aspic” to a brilliant sheen. Fripp’s propulsive guitar figure seems more like a tightly sequenced synthesizer with his inexorable leads speeding along with a series of sixteenth notes that Bruford punctuated with tattoos of drum fills that pummelled and roiled the surrounding music like torrents of staccato quicksilver. At abrupt points in the song, the tempo shifted suddenly to touch base on straight 4/4 time before soaring off into wilder tangents again. I can’t emphasize just how powerfully this track affects me. It’s still my favorite King Crimson track to this day.

After the tour-de-force of “Frame By Frame,” “Matte Kudasai” comes as a gentle zephyr of a tune. I can’t recall the band sounding this relaxed before as Fripp’s guitar lines keen like gliding seagulls. A track like this shows that it’s not all exotic time signatures and hundreds of notes per minute for this band. The islands of lyrical beauty are necessary to give respite to the turbulence elsewhere. As a friend puts it, the punishment/reward ethos of Kind Crimson!

Well after that reward it was time for some punishment. “Indiscipline” sounds of a piece with “Red’s” most intense moments. The track began as a subtle buildup of percussion before turning on a dime into a wildly hurtling beast careening through the city at full speed; ignoring the screams of the pedestrians. The lyrics that Belew recites were taken from a letter his then wife had sent him during the recording period regarding a painting that she had just made. When he stops reciting the lyrics, the track ramps up to breakneck pacing in less than a heartbeat. Managing to be both playful and intimidatingly intense at the same time.

Speaking of intimidation, Side two of the album began with the pummeling grove of “Thela Hun Ginjeet,” wherein a shaken Belew recounted a street run-in with the threatening denizens of the city outside of the confines of Notting Hill Gate studios in London. Fripp got him to recount the tale to the engineers while making a recording on the sly of the still shaken singer. Appropriately enough, the title is an anagram for “Heat In The Jungle.” Shards of Belew’s guitar vie with Bruford’s serrated knife drums while Fripp steamrolls the song forward with his propulsive, trancelike lead lines.

After the peak of intensity on “Ginjeet,” the album dialed down the intensity with the long, languid instrumental of “The Sheltering Sky.” I swear that this track was the impetus for Sting to write the flaccid “Tea In The Sahara” on the last Police album, two years later. The guitar synths that Summers used on the latter can’t help but point back to this far superior tune.

Though this lineup of King Crimson persisted through to 1984, they didn’t come close to matching the level of accomplishment on this album, though “Satori In Tangier” on “Beat” manages the trick capably enough. The group then scattered for a decade before reincorporating in a massive “double trio” lineup in 1994 which added Trey Gunn and Pat Mastelatto to the roster that recorded “Discipline” thirteen years earlier. That tour was the first time that I managed to see King Crimson and I was pleased to hear that they performed most of this album still in their set. Hearing “Frame By Frame” live is nothing I’ll soon forget. And my wife won’t forget going to a concert where [for once] there was a huge line outside of the men’s restroom but no waiting at all at the ladies rooms!

Thursday, 25 February 2021

Robert Fripp ‎– Network (1985)

Style: Alternative Rock, Synth-pop, Ambient 
Format: Vinyl, Cass.
Label: EG, Polygram, Polydor

Tracklist:
1.   North Star
2.   Water Music I
3.   Here Comes The Flood
4.   God Save The King
5.   Under Heavy Manners

Credits:
David Byrne - Guitar, Vocals
Phil Collins - Drums
Paul Duskin - Drums
Brian Eno - Synthesizer
Peter Gabriel - Composer, Piano, Vocals
Daryl Hall - Composer, Vocals
Buster B. Jones - Bass
Tony Levin - Bass
Robert Fripp - Composer, Frippertronics, Guitar, Producer


You might remember the BASF commercial from a few years ago where the tagline was “We Don’t Make the ______, We Only Make it Better”. That’s usually the thankless job of background musicians and producers. On many occasions, a producer is a musician also. In the case of Robert Fripp, he has been a member of The Leauge of Gentleman and one of the founders of the legendary prog rock band King Crimson. In those bands, he has acted as leader, producer, and musician. Despite that deep history in the word of rock, most people would be hard pressed to name one song by him.

Fripp is at his best when he’s collaborating (often as a producer). I have found that on many of the projects he has worked on with various artists, his contribution is what ends up making that particular track or album a standout. It’s easy to pick out, usually in the form of a subtle departure from the approach of the artist he’s working with. Yet it is also difficult to peg in any general terms as Fripp is so versatile. His music can range from placid abstractions to jarring funk ( just listen to the song “Exposure”).

For anyone wanting a quick intro into Fripp’s genus, a frustratingly short 20-minute compilation called Network is a great place to start. It includes collaborations with Peter Gabriel, Phil Collins, Brian Eno and oddly enough Daryl Hall of Hall & Oats.

While Fripp is best known for experimental work, like the kind of music you might hear at an art installation, the songs included here are more pop-oriented. In some cases, the music is a surprising juxtaposition of rock, pop, and soul creating a Fripp-centric style of the avant-garde.

You can’t get any more pop than Daryl Hall, yet his song “Northstar” has an undeniable edge that comes with Fripp’s involvement, while maintaining Hall’s Philly Soul roots thanks to his soaring falsetto and inflections. It’s the album’s most beautiful if the not accessible song. Another equally powerful track is soberer “Here Comes the Flood” which pairs Peter Gabriel, who is a musical force in his own right, with Fripp in a beautiful but grim tale of possible ecological apocalypse. It has the haunting gritty sound that Gabriel would fully exploit on songs like “Dirt” and “Steam” on his LP So years later.

The rest of the album features contributions from Genesis singer/drummer Phil Collins. Songs from Fripp’s other band, League of Gentleman’s God Save The King are featured as well as a random sample from other projects. It’s all too short of an intro but gives some insight to Fripp’s ability to stay aloft in the world of the progressive musician while still coming down to earth to enhance pop music by giving it an edge.

The Network album itself is difficult to find, yet is rewarding for those willing to dig deep enough (just search Spotify). Just as rewarding is hearing the album’s contributors sometimes out of their normal context. You can follow Daryl Hall’s Sacred Songs and Peter Gabriel’s second self-titled album as two good starting points to hear further Fripp involvement. As for Fripp’s own albums, they continue to be excellent examples of versatility and innovation making him all the more likely to be the element behind great music from somebody else – just like the line from the BASF commercial about not making things, but making them better.

José Mário Branco ‎– Mudam-se Os Tempos, Mudam-se As Vontades (1971)

Genre: Folk, World, & Country 
Format: CDVinyl
Label: EMI, Guilda Da Música

Tracklist:
01.   Abertura (Gare D'Austerlitz)
02.   Cantiga Para Pedir Dois Tostões
03.   Cantiga Do Fogo E Da Guerra
04.   O Charlatão
05.   Queixa Das Almas Jovens Censuradas
06.   Nevoeiro
07.   Mariazinha
08.   Casa Comigo Marta
09.   Perfilados De Medo
10.   Mudam-se Os Tempos, Mudam-se As Vontades

Credits:
Double Bass – Willy Lockwoode
Acoustic Guitar, Handclaps, Choir – José Mário
Arranged By, Directed By – J. M. Branco

O fenomenal álbum de estreia de José Mário Branco, é um dos melhores álbuns de sempre da música portuguesa. 
Muito se fala sobre álbuns de estreia com uma aura diferente. Talvez porque, normalmente, contêm todos os elementos de surpresa, mais fúria criativa e são menos controlados por estratégias de mercado. Se a isso juntarmos o contexto político e, precisamente, a estratégia de mercado que poderia haver, um dos grandes álbuns de estreia não só da música nacional, mas também internacional é “Mudam-se Os Tempos, Mudam-se As Vontades” (o tema título é baseado no poema do nosso maior poeta – Luís Vaz de Camões), que José Mário Branco gravou em Paris, em 1971, durante o período em que esteve em exílio (1963-74).

Há quem o chame o “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band” da música portuguesa. Este não é um álbum pontuado por psicadelismo, mas o sentido de fusão e experimental que denota – com as miscigenação de estéticas provenientes do fado, do folk (mesmo duma estética medieval) e do blues – tornam-no num marco de composição e som na história da nossa música.

Para lá da expressão social que denotava, com muitas das letras escritas por Sérgio Godinho, como “Cantiga Para Pedir Dois Tostões”, “O Charlatão” ou “Queixa Das Almas Jovens e Perdidas” (da poetisa e romancista Natália Correia) e “Perfilados de Medo” (de outro grande, Alexandre O’Neill), fazia a exclamação das dores de um país através de música genial, que depois outros começaram a chamar revolucionária – à laia de, musicalmente, justificarem banalidades criativas. Também José Mário Branco escreve, “Nevoeiro” e “Mariazinha”, e bem, mas o centro aqui é mesmo musical – e com todo o respeito por tantos grandes músicos que surgiram na contra-resposta cultural à opressão do Antigo Regime, este álbum é a obra-prima surgida nesse contexto.

Vibrante, melodioso, mordaz ou lamentoso – quer lírica, quer musicalmente – este álbum potenciou a herança de Zeca Afonso, porque lhe acrescentou a intensidade da electricidade e amplificou as palavras muito para além da simplicidade canto e viola, enquanto as raízes “rockeiras” e o groove que pontifica em alguns temas ridicularizam a banalidade do “yé-yé” tão popular na altura e que, curiosamente ou não, tem sido revivido nestes tempos.

Um álbum impressionante!
NERO / Arte Sonora

Banda Do Casaco ‎– INTEGRAL VOL. 2 (2013)

Style: Folk, Psychedelic Rock, Prog Rock, Jazz-Rock
Label: Companhia Nacional De Música

CD1 - No Jardim Da Celeste (1980)

1-01.   Argila De Luz
1-02.   Estranha Força
1-03.   Barquinha De Lua
1-04.   Ai Se A Luzia
1-05.   Natação Obrigatória
1-06.   Liliana Nibelunga (A Bruxa Boa)
1-07.   Madrasta
1-08.   É Ouvi-los

CD2 - Também Eu (1982)

2-01.   Salvé Maravilha
2-02.   Sedução
2-03.   Sétimo Dia
2-04.   Crença
2-05.   Alcateia I
2-06.   Alcateia II
2-07.   Alcateia III
2-08.   Esvoaço Em Lorilai
2-09.   Assim

CD3 - Banda Do Casaco Com Ti Chitas (1984)

3-01.   Cantilena Da Consolação
3-02.   Consilação
3-03.   Lugar Do Ínicio
3-04.   Almutante
3-05.   Veaveza
3-06.   Dono Da Noite
3-07.   Aguaceiro
3-08.   Bailemos
3-09.   Nossa Sinhora D'Azenha
3-10.   Salvé Maravilha II
3-11.   Matar Saudades
3-12.   Música Do Sol
3-13.   Quando Eu Era Pequenina
3-14.   Cantilena
Credits:
Reissue Producer – Nuno Rodrigues
Remastered By – José Fortes

Integral Vol. 1 & Integral Vol. 2 Banda do Casaco CNM Pode pensar-se na Banda do Casaco como um ponto de encontro: António Pinho, com a Filarmónica Fraude, tinha ensaiado uma aproximação à música tradicional portuguesa vindo de um contexto pop; por outro lado, Nuno Rodrigues, partindo dos medievalismos de recorte erudito dos seus Música Novarum procurava chegar ao mesmo destino. O encontro dos dois na Banda do Casaco, nas vésperas da revolução de 1974, cumpridas que estavam as suas obrigações militares, representou o culminar dessa mútua aproximação a um terreno comum que os inspirava a re-imaginar a nossa condição e identidade.

A Banda do Casaco, através da chancela da Companhia Nacional de Música de Nuno Rodrigues, vê agora recolocada no momento presente a sua obra integral em duas cuidadas caixas - uma negra e outra vermelha - onde aos sete álbuns que editaram se adiciona um oitavo de título Origens... que reúne parte da pré-história deste projeto, compilando material dos Música Novarum, de Daphne e dos Family Fair, um DVD com material de arquivo diverso e livros com textos contextualizantes assinados por Nuno Galopim e pelo próprio Nuno Rodrigues e ainda mais dois tomos onde se reúnem as letras de todos os álbuns e respetivas fichas técnicas. José Fortes, técnico em boa parte das gravações originais da Banda do Casaco, assegura um rigoroso restauro áudio dos masters originais (exceção feita a Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos cujos masters se encontram até hoje perdidos e que por isso mesmo foi transcrito de cópias de vinil), funcionando assim como a proverbial cereja em cima do metafórico bolo que estas reedições representam.

A Banda do Casaco é um daqueles casos que beneficia claramente da imersão no estado que Simon Reynolds descreveu como "retromania": surgidos num tempo de estandartes, estes discos, que se editaram entre 1975 e 1984, nunca alcançaram o sucesso que mereciam, sendo ultrapassados em termos de impacto pelas mais engajadas vozes do canto livre, num primeiro momento, e, logo depois, pela explosão rock que assolou o país após 1980. Os anos que se foram acumulando em cima do derradeiro registo da Banda do Casaco, Com Ti Chitas, lançado em 1984, permitiram um lento mas inevitável reencontro com esta música que foi merecendo referências crescentemente elogiosas por parte de quem, na blogosfera, se foi dedicando a documentar o lado mais secreto do passado. Como acontece com alguns vinhos, também a música da Banda do Casaco beneficiou desse tranquilo passar do tempo nas caves da memória, emergindo agora como uma obra plenamente realizada, onde os textos, a música e os arranjos serviam ideias arrojadas, desalinhadas, como cuidam de referir hoje os seus responsáveis originais (ver página 68). O surrealismo das letras, por um lado (com imperatrizes que por um triz não são meretrizes), e o arrojo musical, por outro, também elevam a obra da Banda do Casaco a um patamar singular na história da música portuguesa. De facto, faz algum sentido que esta música tenha falhado o alvo de um grande público, pois não pretendia impor nenhuma cartilha ideológica nem forçar uma rutura geracional. Ouça-se "País: Portugal", retrato agudo de um "país fardado à força", ou "Salvé Maravilha", sopa no mel de uma discografia praticamente imaculada, para se perceber que esta música só se servia a si mesma, sem reconhecer sincronismos com nenhum dos seus contemporâneos. Banda do Casaco: orgulhosamente só. E basta.
Rui Miguel Abreu / Blitz

Wednesday, 24 February 2021

Banda Do Casaco ‎– INTEGRAL VOL. 1 (2013)

Style: Folk, Psychedelic Rock, Prog Rock, Jazz-Rock
Label: Companhia Nacional De Música

CD1 - Origens (2013)

1-01.   Música Novarum - Lenda Dos Namorados
1-02.   Música Novarum - Males De Amor
1-03.   Música Novarum - Barca De Flores
1-04.   Música Novarum - Templo
1-05.   Música Novarum - Temporal No Monte
1-06.   Daphne - Redondilhas De Jano E Franco
1-07.   Daphne - Barzabu
1-08.   Daphne - Pastora
1-09.   Family Fair - Soldier
1-10.   Family Fair - Mrs Colbeck
1-11.   Música Novarum - Le Portugal Aux XXème Siècle Par Serge Farkas - Introdução
1-12.   Música Novarum - Le Portugal Aux XXème Siècle Par Serge Farkas - Parte I
1-13.   Música Novarum - Lenda Dos Namorados
1-14.   Música Novarum - Le Portugal Aux XXème Siècle Par Serge Farkas - Parte II
1-15.   Música Novarum - Males De Amor
1-16.   Música Novarum - Le Portugal Aux XXème Siècle Par Serge Farkas - Parte III
1-17.   Música Novarum - Barca De Flores
1-18.   Música Novarum - Le Portugal Aux XXème Siècle Par Serge Farkas - Parte IV
1-19.   Música Novarum - Templo
1-20.   Música Novarum - Le Portugal Aux XXème Siècle Par Serge Farkas - Parte V
1-21.   Música Novarum - Lenda Dos Namorados

CD2 - Dos Benefícios Dum Vendido No Reino Dos Bonifácios (1974)

2-01.   Banda Do Casaco - Aliciação
2-02.   Banda Do Casaco - Espírito Imundo
2-03.   Banda Do Casaco - D'Alma Aviada
2-04.   Banda Do Casaco - A Ladainha Das Comadres
2-05.   Banda Do Casaco - A Cavalo Dado
2-06.   Banda Do Casaco - Henrique Ser Ou Não Enriquecer
2-07.   Banda Do Casaco - Bonifácios
2-08.   Banda Do Casaco - Lavados, Lavados Sim
2-09.   Banda Do Casaco - Cocktail Do Braço De Prata
2-10.   Banda Do Casaco - Na Boca Do Inferno
2-11.   Banda Do Casaco - Horas De Ponta E Mola
2-12.   Banda Do Casaco - Memorandum / Sábado Sauna - Sábado Santo
2-13.   Banda Do Casaco - Opúsculo

CD3 - Coisas Do Arco Da Velha (1976)

3-01.   Banda Do Casaco - Morgadinha Dos Canibais
3-02.   Banda Do Casaco - Ai Mê André
3-03.   Banda Do Casaco - Romance De Branca-Flor
3-04.   Banda Do Casaco - Rigolindo
3-05.   Banda Do Casaco - Olá Margarida
3-06.   Banda Do Casaco - Canto De Amor E Trabalho
3-07.   Banda Do Casaco - É Triste Não Saber Ler
3-08.   Banda Do Casaco - Virgolino Faz O Pino
3-09.   Banda Do Casaco - A Mulher Do Regedor
3-10.   Banda Do Casaco - Era Uma Vez Uma Velha
3-11.   Banda Do Casaco - Cantiga D'Embalar Avozinhas
3-12.   Banda Do Casaco - Ao Cabo D'Um Ano
3-13.   Banda Do Casaco - Ai Mê André

CD4 - Hoje Há Conquilhas Amanhã Não Sabemos (1977)

4-01.   Banda Do Casaco - Acalanto
4-02.   Banda Do Casaco - Despique
4-03.   Banda Do Casaco - País: Portugal
4-04.   Banda Do Casaco - Alvorada, Tio Lérias
4-05.   Banda Do Casaco - Geringonça
4-06.   Banda Do Casaco - Dez-Onze-Doze
4-07.   Banda Do Casaco - Ont'À Noite
4-08.   Banda Do Casaco - Água De Rosas
4-09.   Banda Do Casaco - Marcha
4-10.   Banda Do Casaco - Dom Rodrigo
4-11.   Banda Do Casaco - Castanholas
4-12.   Banda Do Casaco - 1297
4-13.   Banda Do Casaco - Lenda Dos Pauliteiros
4-14.   Banda Do Casaco - Explicação Da Alvorada
4-15.   Banda Do Casaco - Alvorada

CD5 - Contos Da Barbearia (1978)

5-01.   Banda Do Casaco - Na Cadeira Do Barbeiro
5-02.   Banda Do Casaco - O Diabo Da Velha
5-03.   Banda Do Casaco - A Noite Passada Em Caminha
5-04.   Banda Do Casaco - O Enterro Do Tostão
5-05.   Banda Do Casaco - La Pastorica
5-06.   Banda Do Casaco - Malfamagrifada
5-07.   Banda Do Casaco - Zás! Pás! (O Casório Do Trolha)
5-08.   Banda Do Casaco - Retrato D'Homenzinho Pequenino Com Frasco
5-09.   Banda Do Casaco - Amo Tracinho Te
5-10.   Banda Do Casaco - Godofredo Cheio De Medo
5-11.   Banda Do Casaco - La Pastorica - Lenda Cantada


Credits
Reissue Producer – Nuno Rodrigues
Remastered By – José Fortes

Integral Vol. 1 & Integral Vol. 2 Banda do Casaco CNM Pode pensar-se na Banda do Casaco como um ponto de encontro: António Pinho, com a Filarmónica Fraude, tinha ensaiado uma aproximação à música tradicional portuguesa vindo de um contexto pop; por outro lado, Nuno Rodrigues, partindo dos medievalismos de recorte erudito dos seus Música Novarum procurava chegar ao mesmo destino. O encontro dos dois na Banda do Casaco, nas vésperas da revolução de 1974, cumpridas que estavam as suas obrigações militares, representou o culminar dessa mútua aproximação a um terreno comum que os inspirava a re-imaginar a nossa condição e identidade.

A Banda do Casaco, através da chancela da Companhia Nacional de Música de Nuno Rodrigues, vê agora recolocada no momento presente a sua obra integral em duas cuidadas caixas - uma negra e outra vermelha - onde aos sete álbuns que editaram se adiciona um oitavo de título Origens... que reúne parte da pré-história deste projeto, compilando material dos Música Novarum, de Daphne e dos Family Fair, um DVD com material de arquivo diverso e livros com textos contextualizantes assinados por Nuno Galopim e pelo próprio Nuno Rodrigues e ainda mais dois tomos onde se reúnem as letras de todos os álbuns e respetivas fichas técnicas. José Fortes, técnico em boa parte das gravações originais da Banda do Casaco, assegura um rigoroso restauro áudio dos masters originais (exceção feita a Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos cujos masters se encontram até hoje perdidos e que por isso mesmo foi transcrito de cópias de vinil), funcionando assim como a proverbial cereja em cima do metafórico bolo que estas reedições representam.

A Banda do Casaco é um daqueles casos que beneficia claramente da imersão no estado que Simon Reynolds descreveu como "retromania": surgidos num tempo de estandartes, estes discos, que se editaram entre 1975 e 1984, nunca alcançaram o sucesso que mereciam, sendo ultrapassados em termos de impacto pelas mais engajadas vozes do canto livre, num primeiro momento, e, logo depois, pela explosão rock que assolou o país após 1980. Os anos que se foram acumulando em cima do derradeiro registo da Banda do Casaco, Com Ti Chitas, lançado em 1984, permitiram um lento mas inevitável reencontro com esta música que foi merecendo referências crescentemente elogiosas por parte de quem, na blogosfera, se foi dedicando a documentar o lado mais secreto do passado. Como acontece com alguns vinhos, também a música da Banda do Casaco beneficiou desse tranquilo passar do tempo nas caves da memória, emergindo agora como uma obra plenamente realizada, onde os textos, a música e os arranjos serviam ideias arrojadas, desalinhadas, como cuidam de referir hoje os seus responsáveis originais (ver página 68). O surrealismo das letras, por um lado (com imperatrizes que por um triz não são meretrizes), e o arrojo musical, por outro, também elevam a obra da Banda do Casaco a um patamar singular na história da música portuguesa. De facto, faz algum sentido que esta música tenha falhado o alvo de um grande público, pois não pretendia impor nenhuma cartilha ideológica nem forçar uma rutura geracional. Ouça-se "País: Portugal", retrato agudo de um "país fardado à força", ou "Salvé Maravilha", sopa no mel de uma discografia praticamente imaculada, para se perceber que esta música só se servia a si mesma, sem reconhecer sincronismos com nenhum dos seus contemporâneos. Banda do Casaco: orgulhosamente só. E basta.
Rui Miguel Abreu / Blitz

Tuesday, 23 February 2021

Altered Images ‎– Happy Birthday ...Plus (2004 Remastered) (1981)

Style: New Wave, Alternative Rock 
Format: CD, Vinyl
Label: Epic, Portrait, Edsel Records

Tracklist:
01.   Intro Happy Birthday
02.   Love And Kisses
03.   Real Toys
04.   Idols
05.   Legionaire
06.   Faithless
07.   Beckoning Strings
08.   Happy Birthday
09.   Midnight
10.   A Days Wait
11.   Leave Me Alone
12.   Insects
13.   Outro Happy Birthday
        Bonus Tracks
14.   Dead Pop Stars
15.   Sentimental
16.   Who Cares?
17.   Happy Birthday (Dance Mix)
18.   So We Go Whispering
19.   Jeepster

Credits:
Bass – Johnny McElhone
Drums – Tich Anderson
Vocals – Clare Grogan
Guitar – Gerard Caesar, Jim McKinven, Tony McDaid
Written-By – Altered Images
Producer – Steven Severin 
Producer, Engineer – Martin Rushent

I was aware of Altered Images from the point of their debut album since it got a US release by late 1981. That the band took their name from Malcolm Garrett’s ever-changing design firm name was something that triggered my interest, but beyond that I never heard the first note from it. It remained until early 1982 when Altered Images were one of the bands who got a flexi-disc in subscriber copies of Trouser Press. I heard the 12” version of “See Those Eyes” as produced by Martin Rushent and wow – did it ever reek of the work that Rushent had been doing with The Human League around the same time. The same tech/dub sensibilities were at work, along with the obvious Linn Drum and maybe even the Roland Microcomposer along for the ride. I was down with this so I went out and bought a used copy of the first Altered Images album, “Happy Birthday.” It was easy to source, having been released in America in the fall of 1981, but the new track I had heard was from their upcoming second album; not yet released. I recall that it was some months down the line before I saw the import version with the US edition loping along 2-3 months later.

Spinning “Happy Birthday” now was an abject lesson in how completely different to the Rushent-produced, pop-friendly sound the band rode to the [near] top of the charts that their immediate predecessor could have sounded. First of all, the producer was Steve Severin of Siouxsie + The Banshees and the band sounded very much in the shadow of the Banshees, in spite of the intro/outro of the Rushent-led “Happy Birthday” single’s marimba rhythm track that opened and closed the album with Clare Grogan. But the first, real song, “Love + Kisses” was much more in line with the sort of shadowy sound that would be the stock-in-trade of this debut album.

The floor-tom heavy drumming style was an obvious nod to Budgie’s early Banshees sound. In fact, I can detect a whiff of not just the obvious Siouxsie + the Banshees, here, but even a twist of Bauhaus popping up here and there. But that I’m willing to put down to Engineer ted Sharp at Rockfield Studios, where the album was recorded. He would go on to hold similar duties with the next two Bauhaus albums following this releases by Altered Images. The acoustic rhythm guitars were also afforded plenty of space in the mix, making for a pleasing setting for Ms. Grogan’s somewhat minimal vocals that arced gracefully throughout the song; echoing the peals of the flanged guitar chords.

“Real Toys” showed Altered Images at their most political as they conflated gender power structures with its commensurate sexism and even war. The next song, “Idols” was fully in the Banshees wheelhouse. The track sported Banshees-syle bass by Johnny McElhone and even trotted out the glockenspiel; an old Banshees trick straight out of their early days. Then there was a huge sidestep to something that took the Banshees sound at its most bass-led level, and rode it to Winsometown without telling anyone their intentions up front. The instrumental was hung on ringing guitar lines that circled back on themselves with only some strategically placed “la-las” getting the vocal nod from Ms. Grogan at the song’s halfway point any beyond.

Following the sunniest outlier on this album, the vibe snapped back in to the Siouxsie sound big time with “Faithless.” The minor key was a dead giveaway. Slow, deliberate tempos on the first and third verses, contrasted with the more frantic tempos and delivery for verses two and four. The creepy guitar harmonics were surely the hand of Severin? I’d swear that the more upbeat “Beckoning Strings” had its roots in another Post-Punk band than the Banshees. This time PiL! Listen to McElhone’s bass line. It’s pure Jah Wobble delivery. It remains as a rare fusion of PiL and bubblegum pop. At least until the ending, where birds tweet in the outro fade and Ms. Grogan joins them in birdsong! It was not much of a stretch for her voice.

Then there’s the number two bubblegum pop smash that broke Altered Images after their first two singles made no inroads on the charts. “Happy Birthday” had its origins in bassist McElhone’s canny realization that an original song called “Happy Birthday” might have a chance of sticking around like the other well known song with that title. It could not have hurt in giving the pop confection the boost needed to gain commercial traction.

The marimba played in the introduction was almost the last such instrument one would have imagined on a song this sugary sweet. It really sounded like marimba consciousness might have invaded Britain during its “New Pop” phase, what with Haircut 100 also featuring the instrument some months later. I wonder if this was down to the influence of Kid Creole + the Coconuts but unless I miss my guess, their second album was the breakthrough in the UK and that record was charting at roughly the same time as this one. But apart from that very analog instrument [plus the guitars] it sure sounded like drummer “Tich” Anderson had been replaced by Rushent’s Linn Drum machine as the song was sped forward on some very chipper but mechanistic beats. I’m almost wiling to entertain the notion that the 4/4 was the Linn while Anderson added the fills manually.

“Midnight” was one of the few songs here with prominent keyboards. The organ drone and random waveforms in the intro really stuck out here. And yet the album credits say nothing about the instruments in the margins of these songs. Anderson laid down the motorik beat and not unlike a song by The Cure, the track was half over before the vocals entered into it. The lyrics here were very cryptic as is sounded like Ms. Grogan was repeating “rape on Sunday is a terrible thing” and going on about “serial number 024.”

José Mário Branco ‎– A Mãe (1978)

Genre: Folk, World, & Country, Stage & Screen
Format: CD, Vinyl
Label: EMI, Parlophone, Warner Music Portugal

Tracklist:
01.   Prólogo
02.   As Canseiras Desta Vida
03.   Águas Paradas Não Movem Moínhos
04.   Remendos E Côdeas
05.   1º De Maio
06.   Qual É Coisa Qual É Ela (Elogio Do Comunismo)
07.   ABC (Elogio Da Aprendizagem)
08.   Os Meninos De Amanhã (Elogio Do Revolucionário)
09.   Nada Os Salvará
10.   Camarada Maria Rodrigues
11.   O Terceiro Amigo
12.   Cantiga De Alevantar
13.   Aquele Que Está Vivo Não Diga Nunca "Nunca"

Credits:
Arranged By – José Mário Branco, Luís Pedro Faro
Written-By – José Mário Branco

O que guardamos de um criador para além do resultado mais visível daquilo que cria?

À margem de livros, quadros, discos, coreografias, há outros objectos, fragmentos e elementos documentais que concorrem para o que viremos a conhecer como a obra de alguém e que, muitas vezes, são tão inacessíveis ao público como os processos mentais que originaram determinada criação. Há excepções, sob a forma de acervos ou espólios devidamente catalogados, muitas vezes guardados em fundações ou arquivos, que preservam esses testemunhos e os disponibilizam junto de investigadores e académicos, mas é pouco frequente que esses fundos documentais estejam acessíveis a qualquer pessoa que tenha curiosidade em conhecê-los.

Nome fundamental da música e da cultura portuguesas a partir da segunda metade do século XX, José Mário Branco tem discografia extensa, em nome próprio e com trabalhos de autoria colectiva. Álbuns como Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, Margem de Certa Maneira ou FMI acompanharam momentos muito intensos da história contemporânea portuguesa, da luta contra o fascismo aos anos quentes do início da democracia, e o passar do tempo confirmou esses e outros discos com a assinatura do autor como elementos fundamentais da cultura portuguesa de décadas recentes, quer no cânone musical, quer na memória colectiva. Agora, o Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical (CESEM), organismo que integra a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, dá um passo importante em direcção a uma maior apropriação colectiva desse património criado por José Mário Branco. Em parceria com o próprio músico, o CESEM criou um arquivo on-line que disponibiliza partituras, correspondência, anotações, fotografias e inúmeros outros documentos que permitem conhecer de outro modo o trabalho de José Mário Branco.

Para além da documentação associada aos discos assinados pelo músico, a solo ou em colectivo (como os do Grupo de Acção Cultural), deambular pelo Arquivo José Mário Branco permite conhecer ou redescobrir as inúmeras colaborações que o autor desenvolveu com outros músicos, tantas vezes como produtor, bem como os trabalhos feitos para televisão, cinema ou teatro. Partituras criadas para a peça Galileu Galileu, de Bertold Brecht, encenada por Carlos Avilez para o Teatro Experimental de Cascais, em 1986, para o filme Agosto, de Jorge Silva Melo, estreado em 1991, ou apresentadas no programa televisivo Notas Soltas, de 1984. Fotografias dos espectáculos realizados em 2001, com João Lóio, Regina Castro e Manuela de Freitas. Alinhamentos de concertos, horários de entrevistas, correspondência sobre projectos e espectáculos. E depois há as letras das canções, as que José Mário Branco gravou e as que criou para outros, tantos, bem como o alinhamento completo dos álbuns. Organizados por tipologia das fontes e pelas entradas que ajudam a estruturar o acervo (álbuns espectáculos, teatro, cinema, rádio, etc), os documentos permitem uma navegação intuitiva, mas igualmente uma pesquisa detalhada em função de interesses concretos.

Cumpre-se, deste modo, a intenção de disponibilizar o acervo de José Mário Branco para quem queira estudá-lo, ou estudar, através dele, aspectos concretos da história contemporânea portuguesa, mas também para quem pretenda deambular sem destino certo, respigando imagens, pautas, informações avulsas sobre o trabalho do autor. Foi esse o acordo firmado entre José Mário Branco e o CESEM, devidamente explicado na apresentação do site que alberga este arquivo: «No final do processo, foi acordado que estes materiais digitais, coerentemente organizados, seriam inseridos numa base de dados própria, para livre consulta em linha, concebida como instrumento auxiliar para o estudo, divulgação e reapropriação social da sua obra.» Reapropriemo-nos, então.


Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado originalmente na Revista Blimunda de junho de 2018.