Saturday, 8 September 2018

Grupo De Cantares De Manhouce ‎– Vozes Da Terra (1990)

Style: Folk, World Music
Format: Vinyl
Label: EMI-Valentim De Carvalho, Música Lda.

Tracklist:
A1.   Senhor Lexandre
A2.   Espadelada
A3.   Ó Menina Aurora
A4.   Vai-te Embora António
A5.   Rabela De Vilarinho
A6.   Reis De Manhouce
B1.   Patocina Nogueira
B2.   Ó Robeira, Ó Ribeira
B3.   Ó Laranja, Olá Laranja
B4.   Eu Venho De Lá De Riba
B5.   Senhora Da Saúde
B6.   Vira Flor

Credits:
Producer – Mário Martins

Qualquer um de nós pode, em qualquer dia da semana, entrar numa boa discoteca (uma que ainda não se tenha convertido à situação exclusiva de intermediário entre os armazenistas ingleses e os estabelecimentos nocturnos hoje conhecidos pelo mesmo nome) e apoderar-se das obras completas de Carlos Paredes e José Afonso, da Amália dos anos 50 e 60, de um ou outro disco de Carlos do Carmo, de uma boa compilação de fado (uma que combinasse as correntes «vadia» e «aristocrata», incluindo Marceneiro, Carlos Ramos, João Braga e João Ferreira Rosa, entre outros, seria, em dúvida, a mais indicada), dos primeiros álbuns de Vitorino e Janita Salomé, de uma ou outra banda sonora contemplando as incursões de José Mário Branco pela música transmontana, dos dois primeiros LP do Grupo de Cantares de Manhouce, do essencial disco único dos Ó Que Som Tem, da estreia dos Almanaque, de passagens esporádicas da discografia da Brigada Victor Jara e da obra do GAC. Quem o fizer, levará para casa o melhor lote (parcialmente) disponível no mercado dessa variante de música portuguesa, no interior da qual conceitos como «qualidade» e «autenticidade» se dão desesperadamente as mãos até nos fazerem sentir num apelo surdo à nossa cumplicidade que há um património entregue a unia luta renhida contra o fantasma da extinção. Que em toda a produção posterior ao reinado da denominada MPP apenas tenhamos sentido o frémito dessa corrente telúrica no subsolo das obras de nomes como António Variações, Ocaso Épico, Heróis do Mar (primeiro álbum), António Emiliano e, pontualmente, Sétima Legião, confirma-nos que alguma razão assiste àquele quase imperceptível impulso de sobrevivência vindo do interior ou das margens daquela realidade (consoante o gesto parte de um «genuíno» ou de um «voyeur» da cidade). E depois, é claro, há o paradigma cujo desaparecimento do mercado converteu em utopia: a colecção completa de recolhas de música tradicional de Michel Giacometti. A música genuína em trânsito do produtor para o consumidor sem a razão nem o comércio de permeio. Demasiado tem-po estacionada em arquivos estatais e particulares, na reentrada em circulação desse património inestimável poderiam (diferente de «deveriam», note-se) repousar as esperanças da redescoberta de uma essência (e, em última análise, da identidade) nacional de que vos falei há algumas semanas e a consequente revitalização dos centros nervosos da música portuguesa, cuja caminhada para o futuro terá de passar mais por aí que por Manchester ou Nova Iorque (digo-o sem qualquer acesso de patriotismo e sem  pretender xenofobicamente fechar outras portas nos dias da aldeia global). É verdade que quem gosta mesmo de música deseja discos óptimos independentemente da sua origem no espaço e no tempo; mas, se existe uma forma de música (no seio da qual se albergam inúmeros subtipos) que levou oito séculos a fazer-se a si própria, por que razão ela se há-de extinguir agora que falta tão pouco para a transposição da mítica fasquia do ano 2000? Conceda-se toda a atenção a discos como Terreiro Das Bruxas dos Vai De Roda (do qual João Lisboa já aqui se ocupou) e Vozes Da Terra do Grupo de Cantares de Manhouce. E, sobretudo, não os poupemos a críticas (se for caso disso) porque trocar a subvalorização pela sobrevalorização deixar-nos-á no mesmo ponto do mapa. Vozes Da Terra, por exemplo, é um disco no qual coexistem elementos do mais puro fascínio e factores relacionados com a direcção musical que tomam a sua abordagem pouco convidativa. Se Cantares Da Beira e Aboio — os dois primeiros álbuns — revelaram dureza e pureza quanto baste para repor, ainda que temporariamente, na ordem do dia realidades semiocultas como aquelas a que atrás faço alusão, e se Cânticos Populares Religiosos definiu um certo tipo de ambientes inequívoco que, por exemplo, levou Miguel Esteves Cardoso a escrever na ocasião uni texto interessantíssimo sobre a noite portuguesa (não a que começa no Kremlim e termina no Alcântara-Mar, mas a que nos entra pela janela do comboio quando viajamos de madrugada), Vozes Da Terra perde-se um pouco na tentativa de conciliação entre duas componentes que, embora ancoradas na mesma origem popular, resultam aos nossos ouvidos como forças antagónicas. Assim, enquanto as vozes (femininas e masculinas, mas sobretudo aquelas) actuam por meio da sua extrema beleza e de um vigor indomesticado directamente sobre os nossos centros emocionais, a concepção dos arranjos parece nortear-se por um sentido civilizador que empurra a secção instrumental para uma toada morna de tuna académica em cuja superficialidade esbarra o «apelo da terra» que, no quadro actual da música portuguesa, não nos importaríamos nem um pouco de sentir. Por tudo o que atrás escrevi, terá o seu quê de contraproducente dizer que os melhores momentos do quarto álbum do Grupo de Cantares de Manhouce são aqueles em que O Mistério Das Vozes Búlgaras e Pogues à portuguesa são as imagens que de imediato nos ocorrem. Mas, bem vistas as coisas, talvez seja essa a maneira mais eficaz de definir os caminhos que o disco poderia ter seguido. (LP EMI/Valentim de Carvalho 1990) 
Ricardo Saló / Expresso

Grupo De Manhouce ‎– Cânticos Populares Religiosos (1985)

Style: Classical, Fado, Religious
Format: CD, Vinyl
Label:  EMI-Valentim De Carvalho, Música Lda.

Tracklist:
01.   Embalo
02.   O Menino De Jesus
03.   Amado Jesus
04.   Aqui Estão As Três Rosinhas
05.   Quando Ouvires Tocar Pr'à Missa
06.   Repenica O Sino
07.   Bendito E Louvado Seja
08.   Muito Lindo É O Céu
09.   Senhora Das Dores
10.   À Porta Das Almas Santas
11.   Aleluia
12.   Vindo O Lavrador Da Arada
13.   Encontrei Nossa Senhora
14.   Ladaínha De Nossa Senhora
15.   Ladaínha De Todos-Os-Santos

Credits:
Composed By, Written-By – Traditional
Engineer – Hugo Ribeiro
Producer – Mário Martins

Friday, 7 September 2018

Vai De Roda ‎– Terreiro Das Bruxas (1990)

Style: Folk
Format: CD, Vinyl
Label: UPAV

Tracklist:
01.   Terreiro das Bruxas
02.   Rosinha Vem-te Comigo
03.   Baile Das Mafarricas
04.   Realejo Sacabruxas
05.   Branles
06.   Ronda Dos Espanta Papões I
07.   Quadrilha (e Vivá Música)
08.   Credo
09.   La Vitorina
10.   São João
11.   Ronda Dos Espanta Papões II
12.   Çapatinho Rebatido/Polca
13.   Ungaresca/Saltarello

Credits:
Manuel Tentúgal (hurdy-gurdy, vocals, tin whistle, conch shell, bodhrán, berimbau, pots, bongos, jingle bells, cymbals, triangle, palmas, shaker, percussive objects, carillon, pots and pans, adufe, bass drum, synthesizer, sequencing),
Miguel Teixeira (guitar),
Abílio Santos (braguesa, vocals, ukelele, harmonica, pandeiro, adufe, bodhrán, palmas),
Cristina Martins (synthesizer),
Helena Soares (accordion),
Sérgio Ferreira (violin, vocals),
Eduardo Coelho (Portuguese guitar, guitar, ukelele, vocals),
Jorge Lira (pipes, tin whistle, recorder, uillean pipes, vocals)

Savage Republic ‎– Ceremonial + Trudge (2002)

Style: New Wave, Industrial, Avantgarde
Format: CD, Vinyl
Label: Mobilization Records

Tracklist:
01.   Trudge
02.   Trek
03.   Siege
04.   Assembly
05.   Valetta
06.   Andelusia
07.   Walking Backwards
08.   1000 Days
09.   Mediterranea
10.   Dionysius
11.   Ceremonial
12.   Year Of Exile
13.   Land Of Delusion

Credits:
Bass, Trombone, Keyboards, Voice – Thom Fuhrmann
Drums, Percussion, Bongos, Voice – Mark Erskine
Guitar, Bass, Dulcimer, Voice – Greg Grunke
Guitar, Percussion, Horn, Voice – Ethan Port
Keyboards, Guitar, Mandolin, Percussion – Robert Loveless
Mixed By, Guitar, Bass, Percussion, Voice – Bruce Licher

Both the 1985 Ceremonial LP and the 1985 Trudge EP are combined onto one CD on this reissue, which despite the title actually puts the tracks on Trudge before the ones from Ceremonial. Ceremonial is their most accomplished and accessible work, largely jettisoning the harsher scrapings of the early records for expansive instrumentals featuring chiming guitars and occasional touches of ethereal trombone. Aiming for (and sometimes achieving) a hypnotic drone, at their best these have a melancholy beauty, bringing raga rock into the post-punk age. The title track, unusually, features a female vocal from guest singer Louise Bialik, as well as (relatively) conventional lyrics. Trudge, originally released as a four-song, import-only 12", contains instrumentals from the mid-'80s. These are fully realized works, not just odds and ends; in fact, if they had been added to the Ceremonial album, they would have fit in pretty well, and maybe even counted among the stronger tracks.
Richie Unterberger / AllMusic

Wednesday, 5 September 2018

Tom Zé ‎– The Hips Of Tradition - Brazil 5: The Return Of Tom Zé (1992)

Style: Bossanova, Avantgarde, Experimental
Format: CD, Vinyl, Cass.
Label: Luaka Bop, Warner Bros. Records Inc.

Tracklist:
01.   Ogodô, Ano 2000
02.   Sem A Letra "A"
03.   Feira De Santana
04.   Sofro De Juventude
05.   Cortina 1
06.   Tai
07.   Iracema
08.   Fliperama
09.   O Amor É Velho-Menina
10.   Cortina 2
11.   Tatuarambá
12.   Jingle Do Disco
13.   Lua-Gira-Sol
14.   Cortina 3
15.   Multiplicar-se Única
16.   Cortina 4
17.   O Pão Nosso De Cada Mês
18.   Amar

Credits:
Backing Vocals – Edy Oliveira, Marle Oliveira
Bass, Handclaps – Gilberto Assis
Drums, Cowbell, Handclaps, Pandeiro, Percussion – Lauro Léllis
Electric Guitar, Acoustic Guitar, Mandolin, Percussion, Handclaps – Eder Sandoli
Keyboards, Vocals, Handclaps, Backing Vocals – Ronaldo de Carvalho
Triangle, Shaker, Reco-reco, Handclaps, Mandolin, Berimbau, Backing Vocals – Jarbas Mariz
Producer, Mixed By – Arto Lindsay
Executive Producer – David Byrne, Yale Evelev

This 1992 album by Tom Zé was already produced by Luaka Bop, David Byrne's label, after his discovery by Byrne when he was almost dropping everything to return to his hometown to work in a gas station. "I don't make art, I make spoken and sung journalism." This self-coined definition by Tom Zé helps listeners understand his music. Pop music with self-made instruments, references to modern erudite music, and strong reminiscences of ancient northeastern cantigas de cego and other grooves. On this album subtitled "The Return of Tom Zé," he sticks to the concept developed in the '60s by tropicália, the movement he helped to conceptualize, which perceived music as a cultural industry production for which it is valid to take any world influences, mixing them with Brazilian rhythms, concrete poetry, existentialism, drum machine loops (added later), pop culture, contemporary urban grooves, and everything else that eventually could be thought of. Tom Zé has lots of thoughts to express in his lyrics, which had an English version in the inlay, and this release may be very appealing for those who are into world music. It even explores some indigenous styles, delivered in an almost pure form. But, as he himself put out, his albums shouldn't be listened to for beautiful melodies.
Alvaro Neder / AllMusic

Tom Zé ‎– Brazil Classics 4: The Best Of Tom Zé (1990)

Style: Bossanova, MPB
Format: CD, Vinyl
Label: Luaka Bop, Sire, Warner Bros. Records

Tracklist:
01.   Mã
02.   O Riso E A Faca
03.   Toc
04.   Tô
05.   Um "Oh" E Um "Ah"
06.   Ui! (Você Inventa)
07.   Cademar
08.   Só (Solidão)
09.   Hein?
10.   Augusta, Angélica, E Consolação
11.   Dói
12.   Complexo De Épico
13.   A Felicidade
14.   Vai (Menina Amanhã De Manhã)
15.   Nave Maria

Credits:
Compiled By – David Byrne
Brazilian pop hits Avant Garde/misc. Household appliances and tools in arangements with horns, strings “prepared” guitars (punctuated by grunts, screams and other wild percussion) meld with eccentric metaphorical lyricism. The results: sounds of “sambas and archangels / street and street riot”, sometimes hypnotic, sometimes dissonant and always a beautiful amalgamation of unusual noises and pop songs. Although many songs have a samba / pop feel, lyrically they go much further than the typical samba texts about nature, sex and love. Lyrics aside, these songs remain on the Brazilian continuum of music with incredibly complex diversity. It’s historical music, the historical legacy of the song, i.e., the Brazil = music equation. An integral part of the culture and important in the world of musical exploration.
Luaka Bop

Tom Zé ‎– Nave Maria (1984)

Style: MPB, Experimental
Format: CD, Vinyl
Label: RGE, Som Livre

Tracklist:
A1.   Nave maria
A2.   Mamar no mundo
A3.   Su su menino mandu
A4.   Cilindrada
A5.   Identificação
B1.   Neném gravidez
B2.   Acalanto nuclear
B3.   Conto de fraldas
B4.   Mestre sala
B5.   Teu olhar

Credits:
Eliana Estevão - Vocals
Silvia Maria - Vocals
Cesare Benvenuti - Producer
Reinaldo Barriga - Producer
Tom Zé - Composer, Arranger, Vocal, Acoustic Guitar, Percussion

Monday, 3 September 2018

Tom Zé ‎– Correio Da Estação Do Brás (1978)

Style: MPB, Experimental, Samba
Format: Vinyl
Label: Polysom, Continental

Tracklist:
A1.   Menina Jesus
A2.   Morena
A3.   Correio Da Estação Do Brás
A4.   Carta
A5.   Pecado Original
B1.   Lavagem Da Igreja De Irará
B2.   Pecado, Rifa E Revista
B3.   A Volta Da Xanduzinha
B4.   Amor De Estrada
B5.   Lá Vem Cuíca
B6.   Na Parada De Sucesso

Credits:
Composed By – Tom Zé
Acoustic Guitar – Vicente Barreto
Acoustic Guitar – Sergio De Souza Leite
Bass – Pedro Ivo Lunardi
Cavaquinho – Sergio De Souza Leite
Cuica – Oswaldo José Sbarro
Drums – Luis Guilherme Rabello
Guitar – Sergio De Souza Leite
Keyboards – Armando Ferrante Jr.
Percussion – Mauro Herrera
Tambourine – A.C. Carvalho
Viola – Sergio De Souza Leite (tracks:
Vocals – Diogenes Paulo Budney, Olavo Sérgio Budney, Sérgio Augusto Sarapo, Thomas Roth, Vicente Barreto

Another shot I’ve been holding off in my Brazilian month reviews is Tom Ze. Once, the most forgotten of Brazil’s first wave of Tropicalismo artists suddenly became one of the most exposed, or overexposed, due to David Byrne’s promotion of Tom’s work like Estudando o Samba and in various Tropicalia compilations. What you get from this portrayal is a man who is obviously a bit of an oddball, but who also much like Tom Waits, dicks about with sound in many ways that are both flagrant and exhilarating (sometimes both at once). Tom’s body of work at times does portray him a bit as a cartoon character, but what is sometimes forgotten are the genuine works of unpretentious brilliance. Correio a Estação do Brás released in 1978, was dedicated to the sound of his Italian-influenced borough where he was born in Irara, Bahia but made his living in Sao Paulo. For once, he found a way to smooth out a lot of his rough edges and deliver a genuinely touching album that married his experimental side with the accessible side equally all the way through. 
There were always hints of this ability, check out albums like Grande Liquidacao or Todos o Olhos for his very artful takes on pop with hints of abstraction. It wasn’t until his experiments with samba, using more musical musique concrete techniques like performing on found objects and using dadaist lyrics/phrasing in Estudando o Samba that he had more of an a-ha moment. Correio a Estação do Brás is the perfect distillation of all of those sounds. Standout tracks can be found in the first side, check out the opening track “Menina Jesus”. This track which starts with bloopy synths and an acoustic guitar, starts to project louder and more supplicating, as his voice gets a powerful orchestral backing. The following track is the caressing “Morena” a samba influenced track, has hints of the best work of Os Novos Baianos. “Correio de Estacao” uses a tricky drum machine pattern coupled with what sounds like a funk bass to propel a mantraic-like vocal delivery which verges on becoming capoeira no-wave funk. 
“Carta” is my personal fave (check out his performance of it which I’ll link via Youtube, simply fascinating!)… because it’s truly something uniquely Brazilian, yet totally forward thinking. Here, Tom Ze takes a slow forro guitar rhythm and vocal take, then slowly integrates an increase in musical tempo treating the whole track like a ramp that threatens to explode until he brings it back down with a somber vocal breath and synth parachute. Something about his breath work here reminds of Robert Wyatt’s work with breath sounds in “Rock Bottom”. 
Tracks like “Pecado Original” through “Pecado, Rifa e Revista” blend a bit together but they’re more concise versions of the songs he was structuring in Estudando o Samba. “Amor de Estrada” of course is a cover but a sweet cover nonetheless of a Spanish-language romance song, but he pulls it off expertly as well (capturing the loving/folksy spirit of the original). “Lá vem cuíca” is a brilliant track, bossanova with what sounds like turntable scratches (of course this is a Brazilian instrument and not a turntable) but interesting instrumentation abounds here. “Na praia do sucesso” is a Cartola-like track which is always good in my book since Cartola himself is an unknown great outside of Brazil. My review is a bit all over the place, because Tom himself is a tough artist to pin down. However, if ever there was a case that Tom had stuff to strike directly at the heart its this album.
Diego Olivas / FOND/SOUND  

Tom Zé ‎– Estudando O Samba (1976)

Style: Afro-Cuban, Samba, Avantgarde, Experimental
Format: CD, Vinyl
Label: Polysom, Continental

Tracklist:
01.   Mã
02.   A Felicidade
03.   Toc
04.   Tô
05.   Vai (Menina Amenhâ De Manhâ)
06.   Ui! (Você Inventa)
07.   Doi
08.   Mâe (Mâe Solteira)
09.   Hein?
10.   Só (Solidâo)
11.   Se 2:30
12.   Índice

De Irará para Salvador, e daí, Rio de Janeiro, São Paulo, etc., etc., enfim, o menino Tom Zé, quando percebeu, estava entregue às andanças a que são levados os artistas para dar seus recados. E por aí foi indo o Tom Zé: levado dentro de si uma enorme carga musical assimilada das festas religiosas e das serestas que participou em sua terra natal, passando pelo que viu e ouviu nas andanças e devolvendo tudo isso de maneira nova e criadora nas suas composições, após as suas mexeções com todo esse tipo de coisas nossas jogadas dentro de uma pipeta de graduação sonora e de acordo com os conhecimentos que adquiriu no Conservatório de Música da Universidade Federal da Bahia. 
E por aí foi indo o Tom Zé: poesia, som , som-poesia, tropicália, Salvador, Castro Alves, Vila Velha, mil aplausos, esbarro com ele, alô, olá, estamos aí, 1966. Rio de Janeiro, São Paulo, festival, festival, Tom Zé ganha alguns, vitória, vitória, mas até hoje não lhe fizeram entrega de um dos mais badalados prêmios que tinha direito. Faz muchocho, quando se lembra, mas não para muito prá pensar nesses calotes porque há muito onde jogar o seu talento e ele não gosta de perder tempo. 
Por isso, sem perda de tempo, pensou e realizou este disco, onde procurou reunir uma variedade de tipos e de formas rurais e urbanos do samba, dando a cada música a vestimenta que achou mais adequada. 
E por aí vai indo o Tom Zé: certo do seu trabalho certo, mas não muito certo de sua aceitação. A ponto de num desabafo – a meu ver, precipitado – ter-me dito que se este LP não circulasse, teria que abandonar o lado de pesquisa de seu trabalho. 
O que é isso, amigo? Se esta procurando um pretexto prá tirar uma licença. pode estar certo de que não vai ser desta vez, pois vai ter que trabalhar dobrado. Só espero que não me prive da oportunidade de novamente ser seu parceiro, pois estou aí para trabalharmos juntos, seja em Irará, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, em etc., ou em etc… Gostei da experiência.
Rio de Janeiro, dezembro de 1975 a. ELTON MEDEIROS

Tom Zé ‎– Todos Os Olhos (1973)

Style: MPB, Experimental
Format: CD, Vinyl, Cass.
Label: Continental, Polysom, Warner Music Brasil

Tracklist:
A1.   Complexo De Épico
A2.   A Noite Do Meu Bem
A3.   Cademar
A4.   Todos Os Olhos
A5.   Dodó E Zezé
A6.   Quando Eu Era Ninguém
B1.   Brigitte Bradot
B2.   Augusta, Angélica E Consolação
B3.   Botaram Tanta Fumaça
B4.   O Riso E A Faca
B5.   Um "Oh" E Um "Ah"
B6.   Complexo De Épico

Todos os Olhos é um disco mais conhecido por sua capa do que por suas músicas. Por anos percorreu a história de que a fotografia seria de uma bolinha de gude em um ânus. 
Na verdade, é quase isso. O poeta concretista Décio Pignatari, amigo pessoal de Tom Zé, seria o responsável pela produção da capa. Então, acionou sua agência de publicidade E=mc2 e encomendou que o sócio Reinaldo de Moraes levasse adiante a ideia de ter um ânus na capa. 
Reinaldo, então, contratou sua namorada à época. Por ser fã do Tropicalismo, ela topou na hora. É assim que se desenrola a coisa: 
“Reinaldo de Moraes carrega sua câmera fotográfica alemã Praktica, sem flash, quatro filmes Kodacolor ASA 100, dois abajures e uma caixa de bolinhas de gude, e dirige-se ao motel “Retiro Rodoviário” com a modelo. Utilizando a lente 50 mm invertida, para fazer a função de macro, e a 20 centímetros do corpo da garota, começa a clicar”.

Sim, as fotos foram tiradas, mas Reinado achou que estava muito na cara que se tratava de um ânus. Lembrando que, em 1973, o País vivia em uma Ditadura Militar, e todo material artístico passava pelo crivo de censores. Zé e Pignatari, porém, queriam tirar sarro da situação política. 
Reinaldo, então, preparou uma segunda sessão de fotos com uma nova ideia: colocar a bolinha de gude sobre os lábios da modelo. “Os lábios contraídos formam frisos que em muito se parecem com o que devem parecer, porém de forma mais sutil”: perfeita definição do F/508.

Seresta distorcida
A história da capa é rica (e divertida), mas não ofusca a importância do que foi o 4º álbum na carreira de Tom Zé. 
Com produção de Milton José, Todos os Olhos foi gravado com o Grupo Capote e os músicos Cleon e Dualib na percussão – que têm marcações estranhas, como se fossem um relógio que seguisse uma lógica inexistente do tempo. 
Os arranjos de corda são bem tortos, ideia do violonista/guitarrista Heraldo do Monte, que integrou o importante Quarteto Novo (com Hermeto Pascoal). 
O ritmo do disco lembra serestas contorcidas. A faixa-título, uma das mais emblemáticas da carreira de Tom Zé, confunde vozes, percussões, coros e violão, como se chegassem a um terreno celestial. 
Realmente Zé brinca de ser o centro das atenções, já esperando a reação do público: ‘De vez em quando/Todos os olhos se voltam pra mim/De lá do fundo da escuridão/Esperando e querendo que eu saiba’. 
A música contextualiza um tipo de polarização dos anos 70 diferente do que acontece hoje no Brasil. Remete muito bem à discussão de duas pessoas que têm argumentos diferentes para defender no que acredita. Ao dizer ‘esperando e querendo apanhar’, Tom Zé poderia se referir tanto às ideias ‘subversivas’ naquele tempo de Ditadura, quanto ao ato de já esperar represálias ao manifestar oposição. ‘Eu não tenho chicote’, diz o músico – ou seja, ele pendia para o outro lado, do oprimido. ‘Mas eu sou até fraco’ – porque quem não tinha os militares ao seu lado, não dispunha de apoio, nem de armamento.

Rei da dubiedade
Ao longo dos anos, Tom Zé se tornou mestre dos posicionamentos dúbios. Certamente ele malhou bem essa técnica em Todos os Olhos, cuja própria musicalidade possui um tipo proposital de som canhestro do interior. 
Prova disso é a divertida “Dodó e Zezé”, com cavaquinho de Rogério Duprat. Quem acompanha a seresta com Tom Zé é Odair Cabeça de Poeta, líder do Grupo Capote. A música parece ter sido composta no alpendre de uma longínqua casa do sertão. Nela, Odair e Tom fazem o jogo de repente com perguntas nada óbvias – e respostas, menos ainda. Tipo assim: 
– Por que é que a gente tem que ser marginal ou cidadão? Diga, Zezé.
– É pra ter a ilusão de que pode escolher, viu, Dodó?
– Mas por que é que a gente tem de viver com esse medo danado de tudo na vida? Diga, Zezé.
– É pra aprender que o medo é o nosso maior conselheiro, viu, Dodó?

Todos os Olhos e o sumiço de Tom Zé
Anos depois, Tom Zé disse que Todos os Olhos foi o grande responsável por ele ter sumido. Em documentário sobre o disco, ele contou que os produtores já esperavam que o músico criasse por vias experimentais, mas queriam arranjos como quarteto de cordas, samba ou algo que remetesse à ideia de música popular brasileira. 
“Eu pensava que este disco que iria me botar em circulação, porque era folguedo, cheio de malandragem”, disse Zé. Mas, ao recitar “Todos os Olhos”, reiterou que aquilo assustava as pessoas. 
Havia outra contribuição forte para esse possível afastamento: “Complexo de Épico”. Nela, Tom Zé joga a culpa em ‘todo compositor brasileiro’, por terem perfis muito sérios e marrentos. ‘Ah meu Deus do céu, vá ser sério assim no inferno!’. 
Mesmo assim, Todos os Olhos é um dos discos mais positivistas da carreira de Tom Zé. “Augusta, Angélica e Consolação” é mais uma homenagem a três bairros da cidade de São Paulo que ficam próximos à avenida Paulista, com trocadilhos divertidos (Angélica ‘cheirando a consultório médico’: não poderia haver melhor definição para um local cheio de hospitais e consultórios). Zé disse que, ao compor a canção, lembrou de Adoniran Barbosa e Os Demônios da Garoa, que eternizaram o hit “Trem das Onze”. 
“Botaram Tanta Fumaça” é uma das mais irônicas, porque puxa ritmo carnavalesco para ressaltar que os cidadãos estão com a ‘consciência podre’. “Cademar” é uma brincadeira de palavras que reforça a distância da cidade e da praia, enquanto “Um Oh! E Um Ah!” é um tipo de scat nordestino que seria radicalizado em obras posteriores, como Danç-Êh-Sá (2006). 
Curto, satírico e totalmente tergiverso, Todos os Olhos foi a direção mais obtusa de Tom Zé a um estilo próprio de compor. Seu estilo mudaria bastante com o passar do tempo: no seguinte Estudando o Samba (1975), ele levaria a sério a ideia de arranjos complexos até transfigurar a ideia de seriedade musical mais pra frente, a partir de The Hips of Tradition (1992), primeiro lançamento depois da redescoberta de sua obra por parte de David Byrne (Talking Heads), nos anos 1980.
Tiago Ferreira / Na Mira Do Groove