Monday, 3 September 2018

Tom Zé ‎– Correio Da Estação Do Brás (1978)

Style: MPB, Experimental, Samba
Format: Vinyl
Label: Polysom, Continental

Tracklist:
A1.   Menina Jesus
A2.   Morena
A3.   Correio Da Estação Do Brás
A4.   Carta
A5.   Pecado Original
B1.   Lavagem Da Igreja De Irará
B2.   Pecado, Rifa E Revista
B3.   A Volta Da Xanduzinha
B4.   Amor De Estrada
B5.   Lá Vem Cuíca
B6.   Na Parada De Sucesso

Credits:
Composed By – Tom Zé
Acoustic Guitar – Vicente Barreto
Acoustic Guitar – Sergio De Souza Leite
Bass – Pedro Ivo Lunardi
Cavaquinho – Sergio De Souza Leite
Cuica – Oswaldo José Sbarro
Drums – Luis Guilherme Rabello
Guitar – Sergio De Souza Leite
Keyboards – Armando Ferrante Jr.
Percussion – Mauro Herrera
Tambourine – A.C. Carvalho
Viola – Sergio De Souza Leite (tracks:
Vocals – Diogenes Paulo Budney, Olavo Sérgio Budney, Sérgio Augusto Sarapo, Thomas Roth, Vicente Barreto

Another shot I’ve been holding off in my Brazilian month reviews is Tom Ze. Once, the most forgotten of Brazil’s first wave of Tropicalismo artists suddenly became one of the most exposed, or overexposed, due to David Byrne’s promotion of Tom’s work like Estudando o Samba and in various Tropicalia compilations. What you get from this portrayal is a man who is obviously a bit of an oddball, but who also much like Tom Waits, dicks about with sound in many ways that are both flagrant and exhilarating (sometimes both at once). Tom’s body of work at times does portray him a bit as a cartoon character, but what is sometimes forgotten are the genuine works of unpretentious brilliance. Correio a Estação do Brás released in 1978, was dedicated to the sound of his Italian-influenced borough where he was born in Irara, Bahia but made his living in Sao Paulo. For once, he found a way to smooth out a lot of his rough edges and deliver a genuinely touching album that married his experimental side with the accessible side equally all the way through. 
There were always hints of this ability, check out albums like Grande Liquidacao or Todos o Olhos for his very artful takes on pop with hints of abstraction. It wasn’t until his experiments with samba, using more musical musique concrete techniques like performing on found objects and using dadaist lyrics/phrasing in Estudando o Samba that he had more of an a-ha moment. Correio a Estação do Brás is the perfect distillation of all of those sounds. Standout tracks can be found in the first side, check out the opening track “Menina Jesus”. This track which starts with bloopy synths and an acoustic guitar, starts to project louder and more supplicating, as his voice gets a powerful orchestral backing. The following track is the caressing “Morena” a samba influenced track, has hints of the best work of Os Novos Baianos. “Correio de Estacao” uses a tricky drum machine pattern coupled with what sounds like a funk bass to propel a mantraic-like vocal delivery which verges on becoming capoeira no-wave funk. 
“Carta” is my personal fave (check out his performance of it which I’ll link via Youtube, simply fascinating!)… because it’s truly something uniquely Brazilian, yet totally forward thinking. Here, Tom Ze takes a slow forro guitar rhythm and vocal take, then slowly integrates an increase in musical tempo treating the whole track like a ramp that threatens to explode until he brings it back down with a somber vocal breath and synth parachute. Something about his breath work here reminds of Robert Wyatt’s work with breath sounds in “Rock Bottom”. 
Tracks like “Pecado Original” through “Pecado, Rifa e Revista” blend a bit together but they’re more concise versions of the songs he was structuring in Estudando o Samba. “Amor de Estrada” of course is a cover but a sweet cover nonetheless of a Spanish-language romance song, but he pulls it off expertly as well (capturing the loving/folksy spirit of the original). “Lá vem cuíca” is a brilliant track, bossanova with what sounds like turntable scratches (of course this is a Brazilian instrument and not a turntable) but interesting instrumentation abounds here. “Na praia do sucesso” is a Cartola-like track which is always good in my book since Cartola himself is an unknown great outside of Brazil. My review is a bit all over the place, because Tom himself is a tough artist to pin down. However, if ever there was a case that Tom had stuff to strike directly at the heart its this album.
Diego Olivas / FOND/SOUND  

Tom Zé ‎– Estudando O Samba (1976)

Style: Afro-Cuban, Samba, Avantgarde, Experimental
Format: CD, Vinyl
Label: Polysom, Continental

Tracklist:
01.   Mã
02.   A Felicidade
03.   Toc
04.   Tô
05.   Vai (Menina Amenhâ De Manhâ)
06.   Ui! (Você Inventa)
07.   Doi
08.   Mâe (Mâe Solteira)
09.   Hein?
10.   Só (Solidâo)
11.   Se 2:30
12.   Índice

De Irará para Salvador, e daí, Rio de Janeiro, São Paulo, etc., etc., enfim, o menino Tom Zé, quando percebeu, estava entregue às andanças a que são levados os artistas para dar seus recados. E por aí foi indo o Tom Zé: levado dentro de si uma enorme carga musical assimilada das festas religiosas e das serestas que participou em sua terra natal, passando pelo que viu e ouviu nas andanças e devolvendo tudo isso de maneira nova e criadora nas suas composições, após as suas mexeções com todo esse tipo de coisas nossas jogadas dentro de uma pipeta de graduação sonora e de acordo com os conhecimentos que adquiriu no Conservatório de Música da Universidade Federal da Bahia. 
E por aí foi indo o Tom Zé: poesia, som , som-poesia, tropicália, Salvador, Castro Alves, Vila Velha, mil aplausos, esbarro com ele, alô, olá, estamos aí, 1966. Rio de Janeiro, São Paulo, festival, festival, Tom Zé ganha alguns, vitória, vitória, mas até hoje não lhe fizeram entrega de um dos mais badalados prêmios que tinha direito. Faz muchocho, quando se lembra, mas não para muito prá pensar nesses calotes porque há muito onde jogar o seu talento e ele não gosta de perder tempo. 
Por isso, sem perda de tempo, pensou e realizou este disco, onde procurou reunir uma variedade de tipos e de formas rurais e urbanos do samba, dando a cada música a vestimenta que achou mais adequada. 
E por aí vai indo o Tom Zé: certo do seu trabalho certo, mas não muito certo de sua aceitação. A ponto de num desabafo – a meu ver, precipitado – ter-me dito que se este LP não circulasse, teria que abandonar o lado de pesquisa de seu trabalho. 
O que é isso, amigo? Se esta procurando um pretexto prá tirar uma licença. pode estar certo de que não vai ser desta vez, pois vai ter que trabalhar dobrado. Só espero que não me prive da oportunidade de novamente ser seu parceiro, pois estou aí para trabalharmos juntos, seja em Irará, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, em etc., ou em etc… Gostei da experiência.
Rio de Janeiro, dezembro de 1975 a. ELTON MEDEIROS

Tom Zé ‎– Todos Os Olhos (1973)

Style: MPB, Experimental
Format: CD, Vinyl, Cass.
Label: Continental, Polysom, Warner Music Brasil

Tracklist:
A1.   Complexo De Épico
A2.   A Noite Do Meu Bem
A3.   Cademar
A4.   Todos Os Olhos
A5.   Dodó E Zezé
A6.   Quando Eu Era Ninguém
B1.   Brigitte Bradot
B2.   Augusta, Angélica E Consolação
B3.   Botaram Tanta Fumaça
B4.   O Riso E A Faca
B5.   Um "Oh" E Um "Ah"
B6.   Complexo De Épico

Todos os Olhos é um disco mais conhecido por sua capa do que por suas músicas. Por anos percorreu a história de que a fotografia seria de uma bolinha de gude em um ânus. 
Na verdade, é quase isso. O poeta concretista Décio Pignatari, amigo pessoal de Tom Zé, seria o responsável pela produção da capa. Então, acionou sua agência de publicidade E=mc2 e encomendou que o sócio Reinaldo de Moraes levasse adiante a ideia de ter um ânus na capa. 
Reinaldo, então, contratou sua namorada à época. Por ser fã do Tropicalismo, ela topou na hora. É assim que se desenrola a coisa: 
“Reinaldo de Moraes carrega sua câmera fotográfica alemã Praktica, sem flash, quatro filmes Kodacolor ASA 100, dois abajures e uma caixa de bolinhas de gude, e dirige-se ao motel “Retiro Rodoviário” com a modelo. Utilizando a lente 50 mm invertida, para fazer a função de macro, e a 20 centímetros do corpo da garota, começa a clicar”.

Sim, as fotos foram tiradas, mas Reinado achou que estava muito na cara que se tratava de um ânus. Lembrando que, em 1973, o País vivia em uma Ditadura Militar, e todo material artístico passava pelo crivo de censores. Zé e Pignatari, porém, queriam tirar sarro da situação política. 
Reinaldo, então, preparou uma segunda sessão de fotos com uma nova ideia: colocar a bolinha de gude sobre os lábios da modelo. “Os lábios contraídos formam frisos que em muito se parecem com o que devem parecer, porém de forma mais sutil”: perfeita definição do F/508.

Seresta distorcida
A história da capa é rica (e divertida), mas não ofusca a importância do que foi o 4º álbum na carreira de Tom Zé. 
Com produção de Milton José, Todos os Olhos foi gravado com o Grupo Capote e os músicos Cleon e Dualib na percussão – que têm marcações estranhas, como se fossem um relógio que seguisse uma lógica inexistente do tempo. 
Os arranjos de corda são bem tortos, ideia do violonista/guitarrista Heraldo do Monte, que integrou o importante Quarteto Novo (com Hermeto Pascoal). 
O ritmo do disco lembra serestas contorcidas. A faixa-título, uma das mais emblemáticas da carreira de Tom Zé, confunde vozes, percussões, coros e violão, como se chegassem a um terreno celestial. 
Realmente Zé brinca de ser o centro das atenções, já esperando a reação do público: ‘De vez em quando/Todos os olhos se voltam pra mim/De lá do fundo da escuridão/Esperando e querendo que eu saiba’. 
A música contextualiza um tipo de polarização dos anos 70 diferente do que acontece hoje no Brasil. Remete muito bem à discussão de duas pessoas que têm argumentos diferentes para defender no que acredita. Ao dizer ‘esperando e querendo apanhar’, Tom Zé poderia se referir tanto às ideias ‘subversivas’ naquele tempo de Ditadura, quanto ao ato de já esperar represálias ao manifestar oposição. ‘Eu não tenho chicote’, diz o músico – ou seja, ele pendia para o outro lado, do oprimido. ‘Mas eu sou até fraco’ – porque quem não tinha os militares ao seu lado, não dispunha de apoio, nem de armamento.

Rei da dubiedade
Ao longo dos anos, Tom Zé se tornou mestre dos posicionamentos dúbios. Certamente ele malhou bem essa técnica em Todos os Olhos, cuja própria musicalidade possui um tipo proposital de som canhestro do interior. 
Prova disso é a divertida “Dodó e Zezé”, com cavaquinho de Rogério Duprat. Quem acompanha a seresta com Tom Zé é Odair Cabeça de Poeta, líder do Grupo Capote. A música parece ter sido composta no alpendre de uma longínqua casa do sertão. Nela, Odair e Tom fazem o jogo de repente com perguntas nada óbvias – e respostas, menos ainda. Tipo assim: 
– Por que é que a gente tem que ser marginal ou cidadão? Diga, Zezé.
– É pra ter a ilusão de que pode escolher, viu, Dodó?
– Mas por que é que a gente tem de viver com esse medo danado de tudo na vida? Diga, Zezé.
– É pra aprender que o medo é o nosso maior conselheiro, viu, Dodó?

Todos os Olhos e o sumiço de Tom Zé
Anos depois, Tom Zé disse que Todos os Olhos foi o grande responsável por ele ter sumido. Em documentário sobre o disco, ele contou que os produtores já esperavam que o músico criasse por vias experimentais, mas queriam arranjos como quarteto de cordas, samba ou algo que remetesse à ideia de música popular brasileira. 
“Eu pensava que este disco que iria me botar em circulação, porque era folguedo, cheio de malandragem”, disse Zé. Mas, ao recitar “Todos os Olhos”, reiterou que aquilo assustava as pessoas. 
Havia outra contribuição forte para esse possível afastamento: “Complexo de Épico”. Nela, Tom Zé joga a culpa em ‘todo compositor brasileiro’, por terem perfis muito sérios e marrentos. ‘Ah meu Deus do céu, vá ser sério assim no inferno!’. 
Mesmo assim, Todos os Olhos é um dos discos mais positivistas da carreira de Tom Zé. “Augusta, Angélica e Consolação” é mais uma homenagem a três bairros da cidade de São Paulo que ficam próximos à avenida Paulista, com trocadilhos divertidos (Angélica ‘cheirando a consultório médico’: não poderia haver melhor definição para um local cheio de hospitais e consultórios). Zé disse que, ao compor a canção, lembrou de Adoniran Barbosa e Os Demônios da Garoa, que eternizaram o hit “Trem das Onze”. 
“Botaram Tanta Fumaça” é uma das mais irônicas, porque puxa ritmo carnavalesco para ressaltar que os cidadãos estão com a ‘consciência podre’. “Cademar” é uma brincadeira de palavras que reforça a distância da cidade e da praia, enquanto “Um Oh! E Um Ah!” é um tipo de scat nordestino que seria radicalizado em obras posteriores, como Danç-Êh-Sá (2006). 
Curto, satírico e totalmente tergiverso, Todos os Olhos foi a direção mais obtusa de Tom Zé a um estilo próprio de compor. Seu estilo mudaria bastante com o passar do tempo: no seguinte Estudando o Samba (1975), ele levaria a sério a ideia de arranjos complexos até transfigurar a ideia de seriedade musical mais pra frente, a partir de The Hips of Tradition (1992), primeiro lançamento depois da redescoberta de sua obra por parte de David Byrne (Talking Heads), nos anos 1980.
Tiago Ferreira / Na Mira Do Groove