Tuesday, 27 November 2018

VA ‎– Studio One Ironsides (Original Classic Recordings 1963-1979) (2013)

Style: Rocksteady, Ska, Roots Reggae, Dub
Format: CD, Vinyl
Label: Soul Jazz Records

Tracklist:
01.   Fabian Cooke - Mother And Child
02.   Marcia Griffiths - Mark My Word
03.   Freddie McGregor - I Man A Rasta
04.   Prince Jazzbo - Natty Ting A Ling
05.   The Paragons - Danger In Your Eyes
06.   Drum Bago & The Rebel Group - Reggae (Version)
07.   Don Drummond - Nanny's Corner
08.   The Stingers - Rasta Don't Stop No One
09.   Lone Ranger - Three Mile Skank
10.   The Soul Sister - Another Night
11.   Freddie McGregor - Come Now Sister
12.   Dennis Alcapone - Joe Frazier [Round Two]
13.   The Soul Brothers - Soho
14.   Alton Ellis - Can I Change My Mind
15.   Johnny Osbourne - Jealousy, Heartache And Pain
16.   The Gladiators - Bongo Red
17.   Pablove Black - Jamrec Dub
18.   Cornel Campbell0 - I'm Still Waiting

Falar em 'poço sem fundo' já perde impacto e Faz-se lugar-comum. Que 'há sempre mais um disco made in Kingston por ouvir' também foi chão que deu uvas. Momento, por isso, de chamar os boys pelos nomes. Segundo fontes próximas de Lee Perry, a lei jamaicana prevê, desde os anos 60, que quem não entre em estúdio com o expresso fim de gravar um disco por trimestre, receberá, de imediato, voz de prisão, e, uma vez aí despojado dos seus pertences (sound system, microfone, caixote de acetatos de 7 polegadas, gira-discos e, por vezes, roupa), será privado de qualquer forma de comunicação e obrigado a consumir — sob apertada vigilância — um charuto cubano por dia. Isto explicaria a sonora tosse nos seus registos do fim dos anos 80 e o voluntário exílio do produtor na Suíça. Já elementos do antigo entourage de Clement Coxsone Dodd (que pediram anonimato) asseveram que um parágrafo secreto da mesma lei garante aos cumpridores daquele procedimento chorudo desconto no IRS. Na ausência (conhecida) de rituais masoquistas na ilha próxima do suspeito Haiti, isso explicaria que a Jamaica continue a rebentar pelas costuras, sem quebra visível de produção musical. Por exemplo, que história vem a ser esta, agora, de 'Ironsides'? Música produzida por fãs da série policial com Raymond Burr on wheels? Reggae de metais e de 'blindagem estética' (o cocktail de crueza e sofisticação) mais à vista? Ou a resposta ao repto patronal: 'quando fores almoçar, hás de pensar, aí, num conceito, que a gente, da parte da tarde, compõe, para ver se se consegue livrar do que ainda para aqui há'? 
Que se saiba, e tendo esta cena reeditorial lugar em Londres, pende para a última hipótese o novo projecto de island digging da (imbatível, nesta matéria) Soul Jazz. Só que se esconde algo de mais sério (historicamente, até) sob o singular título. Porque a música remete para o período de maior pujança criativa do mestre da Studio One. O qual ditou um quadro de sobreprodução, cujo efeito perverso residiu na incapacidade de absorção das rádios locais, do que Clement se defendeu com a criação de editoras fictícias como a Iron Side. Numa palavra, dir-se-á que esta dúzia e meia de pepitas de ouro reitera o desejo de querer ser outra coisa que, então, se apoderou do hegemónico roots reggae. Só ouvindo se ficará com a noção desta insigne série de giant leaps for mankind. Por incrível que pareça, é quando paira a suspeita de que 'chove no molhado' que surge aquela que talvez seja a mais fresca, empolgante e inventiva obra de 'amantes da causa'. Que comece em Fabian Cooke e termine em Condi Campbell, será o menos. O 'problema' está naquilo a que ambos servem de bookends: Marcia Griffiths e uma obra-prima de frescura melódica, rítmica e vocal em qualquer género de música; Freddie McGregor a agitar a 'bandeira da revolução a cavalo de um baixo substancial de pasmar; Prince Jazzbo a abrir o livro rockers e, também ele, dando largas à arte de bem jock em toda a sela; The Paragons em aula magistral sobre a longevidade do roots reggae, Drum Bago & The Rebel Group mostrando como um só exemplo de dub futurista pode levar alguém, do outro lado do oceano, a abrir uma casa como a On-U Sound; The Stingers em vertiginoso rock steady instrumental com forte aroma a jazz local; Lone Ranger plantando future roots; The Soul Sister extraindo toda a riqueza soul de um pós-lovers rock, e por aí fora. Como dizia Clapton, à saí-da dos Cream, 'let it rain'.
 Ricardo Saló / Expresso (2013)

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