sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Pacific ‎– Inference (1990)

Style: Synth-pop, Indie Pop
Format: CDVinyl
Label:  Creation Records

Tracklist:
1.   Shrift
2.   Autumn Island
3.   Mineral
4.   Barnoon Hill
5.   I Wonder
6.   Henry Said
7.   Jetstream
8.   Shrift

Credits:
Vanessa Norwood - singing
Simon Forest - cello
Nick Wilson - trumpet
Rachel Norwood - guitar
Dennis Wheatley - singing, guitars, atari computer programming various other noises

Como o grupo-fantasma Momus de Nicholas Currie, os Pacific de Dennis (quem?) in-vestem o essencial da sua energia criativa na redefinição for-mal da canção pop. Porém, enquanto a aposta do novel autor de «weird love songs» se faz no sentido da articulação dramática entre texto e música de acordo com a especificidade de cada canção, a da nova esperança da pop britânica parece assentar em exclusivo na esfera do formal segundo uma lógica de diversificação sonora, em particular tímbrica. Assim era «Jetstream», canção incluída no EP de estreia Sea Of Sand, de 1988, e sua obra-prima provisória — uma voz monocórdica como que captada no receptor de ondas curtas de um «médium» sobre tapeçaria de guitarra dedilhada, sintetizador e xilofone; corpo central da canção com voz masculina apoiada em guitarra acústica e violoncelo; trompete com surdina evocador de Pale Fountains rompendo pelos espaços; quebra súbita na estrutura permitindo a infiltração de mais vozes do Além (entre as quais a de Churchill) e final protagonizado por voz feminina por entre ataques de violoncelo. 
Mais que a tentativa de implantação de uma nova fórmula, a estratégia cénica exemplar de «Jetstream» assumia-se como uma experiência estética (sem qualquer relação, no entanto, com o conceito de música experimental) resultante da vontade de superar velhos modelos no sentido da redisponibilização do idioma pop para novas soluções. Que a reinvenção é possível, e inteiramente lícita, a partir de um trabalho de superfície que mais tarde poderá contaminar as instâncias mais profundas da canção, demonstrava-o a circunstância de não encontrarmos outra coisa senão a estrutura trivial da canção pop à medida que se caminhava para o interior de cada uma delas. Desse brioso trabalho desenvolvido de fora para dentro por uma causa justa restam como testemunhos as quatro peças-piloto de Sea Of Sand e a canção, e dois instrumentais do EP Shrift, de 1989. 
Além de proporcionar um sentido de corpo à obra ainda escassa dos Pacific, a sua re-união num único disco vem revelar-nos o ponto exacto em que se começou a definir a decisiva viragem que faz hoje da Creation Records uma das editoras mais criativas (literalmente) do momento e, por outro lado, sublinhar que a reconversão e reabilitação da pop branca, não se fará tanto pela capitulação perante a lógica da música de dança como pela absorção da multiplicidade de estímulos em livre circulação no ar que respiramos no início dos anos 90. Obviamente que este recado se estende aos circunspectos músicos pop da nossa terra...
Ricardo Saló / Expresso (1990)

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