Thursday, 5 July 2018

Né Ladeiras ‎– Corsária (1988)

Style: Abstract, Minimal, Ambient, Synth-pop
Format: CD, Vinyl
Label: Transmédia

Tracklist:
A1. Madrugada
A2.  Corsária
A3. Garbo
A4. Mar
B1. Cruz
B2. Pirata (J.G.)
B3. Sedutora
B4. Jag Vill Vara Ensam

Credits:
Lyrics By – Alma Om
Music By – Né Ladeiras

Com a força do mito   
Começo por declarar, com toda a solenidade que for necessária, aquilo que trinta segundos após a edição do disco se terá, -possivelmente, convertido no lugar-comum do mês, do ano —coisa pouca para me demover de fazê-lo: Corsária é um disco belo como não existem muitos na música portuguesa.
 Restaurar o mito de Greta Garbo (quem quereria ocupar-se de semelhante tarefa hoje em dia?) ou, na melhor tradição da Transilvânia, sugar-lhe até à última gota a sua essência mais profunda — eis para onde Corsária, num primeiro embate, parece apostado em empurrar-nos. Mas não deixa de ser estranhamente sintomático (ou inquietante, se considerada outra perspectiva) o que vem a seguir, fruto de cada nova audição. Que, tratando-se de um disco confessadamente de homenagem a Garbo e acompanhando-se, como se devem acompanhar, atentamente os seus belos textos, não seja possível em momento algum —nem mesmo quando Mário Viegas solta sobre ela uma mão-cheia de impropérios que jamais se aplicariam a Né Ladeiras — associar Corsária à lendária Ninotchka. 
Desengane-se quem julgue entrever aqui o rotundo fracasso de um projecto. «Povo Que Lavas No Rio» por António Variações fazia pensar em Variações. Não remetia para Amália, que era suposto homenagear. O mesmo se pode dizer de «Song To the Siren» dos This Mortal Coil em relação a Tim Buckley, seu autor. E de «All Along The Watchtower» de Hendrix face a Dylan. Estarei a mencionar fracassos, porventura? Ou não será este o começo de uma bela (não, não vou dizer amizade) colecção de obras-primas? Aproximemo-nos ainda um pouco mais do cerne da questão. Em 1982, os Tuxedomoon povoaram um outro disco erguido em honra do mito (Divine) de «samplings» da própria Garbo, extraídos dos filmes que a conduziram ao Olimpo, que acabaram por constituir os únicos pontos de atracção de uma partitura absolutamente anódina (é, significativamente, o único registo da sua vasta discografia que (o grupo norte-americano se recusa a ree-ditar). Que restou aí da forte personalidade dos Tuxedomoon? Nada. A triste imagem de um conjunto de músicos reduzidos à impotência perante a força de um mito. Corsária impõe-se onde Divine fracassou. porque a personalidade musical de Né Ladeiras, que Sonho Azul havia remetido para o campo das incertezas, assoma em Corsária com um fulgor que tudo converte à sua imagem. Daí que o universo da diva se submeta à «regras do de Né Ladeiras e não o contrário. Né Ladeiras nos anos 30? Não. Né Ladeiras (e Greta Garbo, se fizerem muita questão) nos anos 80, com os 90 a espreitar. Não o revivalismo mas a mais arrojada modernidade. Creio não ser suficientemente amplo o leque de considerações de ordem musical que não iriam desempenhar um papel drasticamente redutor da alucinante beleza deste disco, do irresistível ambiente feérico que as primeiras palavras («Desejo e veleiro, inovagem ou nevoeiro» indelevelmente instalam e que cada nova I sílaba lança num vertiginoso jogo de luzes e sombras em que a insatisfação é a única constante («Já o barco se vai da praia, apetece-lhe o mar») e a melancolia o derradeiro porto. Limitar-me-ei a conceder o devido destaque ao notabilíssimo e crucial trabalho de ambientação sonora de Luís_Cilia, extensão assumida do sentido profundo dos textos de Né Ladeiras. A escassez de «nuances» rítmicas dos seus arranjos, se bem que possa dificultar a abordagem do álbum aos menos predispostos para o pendor marcadamente melancólico das melodias da cantora, afigura-se como a opção mais correcta, já que favorece a corrente conceptual que percorre todo o disco, garantindo-lhe a unidade. 
Corsária é o futuro da música portuguesa a perturbar o presente: Se a palavra «investimento» não fosse tão estupidamente material, seria assim mesmo que me referiria ao que a sua imediata aquisição representa para cada um de nós. Uma outra excelente razão para fazê-lo? Seja. Em Portugal, ninguém canta como Né Ladeiras. Que me perdoem os mitos com ou sem fundamento... (LP Transmédia, 1988) 
Ricardo Saló / Expresso 

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