Sunday, 29 July 2018

Milton Nascimento ‎– Milagre Dos Peixes (1973)

Style: Latin Jazz
Format: CD, Vinyl
Label: Intuition Records

Tracklist:
01.   Os Escravos De Jó
02.   Carlos, Lúcia, Chico E Tiago
03.   Milagre Dos Peixes
04.   A Chamada
05.   Pablo Nº 2
06.   Tema Dos Deuses
07.   Hoje É Dia De El Rey
08.   A Última Sessão De Música
09.   Cadê
10.   Sacramento
11.   Pablo

Credits:
Engineer [Technical Director] – Z. J. Merky
Producer [Assistant] – Manoel Moraes
Producer [Production Director] – Milton Miranda
Recording Supervisor [Musical Director] – Maestro Gaya
Remix [Remix Technician] – Nivaldo Duarte

Priorizando a versatilidade e sem se apegar a gêneros musicais, Milton Nascimento procura desde sempre apresentar algo bem particular em cada álbum que lança. Grande parte de sua discografia – principalmente por conta daquela fase entre 1967 e 1978 – é composta por LPs emblemáticos e interessantes de um modo geral, mas em matéria de imponência e pretensão artística nenhum trabalho alcança “Milagre dos Peixes”. 
Naturalmente, é fácil dizer que o momento mais importante na trajetória de Milton foi em 1972, com o lançamento do LP em parceria com Lô Borges, “Clube da Esquina”. Talvez tenha sido mesmo, é justo. Mas é com o álbum do ano seguinte que ele arrebenta com tudo tentando artisticamente se superar, e o resultado é o trabalho mais experimental de uma carreira que já dura mais de 50 anos e talvez o disco mais denso lançado naquele período de repressão política. 
Segundo Fernando Brant, letrista da faixa-título, o álbum foi concebido para ser um grande passo: “Uma abertura nova, algo para assustar os desavisados e arrepiar a pele. “Milagre dos Peixes” é uma atitude de revolta e de entrega. Milton está neste disco como uma criança agressiva”, disse à Folha de São Paulo quando faltavam poucos dias para o lançamento. 
Aclamado pela crítica e público, o trabalho é uma experiência única, a começar pela carência de versos. O disco é quase inteiro cantado sem palavras, pois muitas das letras foram censuradas. Milton não acatou o gesto dos militares como um impedimento e prosseguiu com o projeto desafiando a repressão. Sendo assim, apenas as faixas “Milagre dos Peixes” e “Escravos de Jó” (esta com Clementina de Jesus nos vocais) continham letras de fato, isso sem mencionar “Sacramento” e “Pablo” (esta cantada por Nico, irmão caçula de Lô Borges), que vinham separadas em um compacto triplo, como se fossem bonus tracks, juntamente com a instrumental “Cadê”. Mais tarde, com o lançamento em CD, essas três canções acabaram sendo incorporadas ao tracklist oficial. 
Sobre essa situação, Milton disse: “É claro que as músicas tinham um teor político, mas não era nada explícito. Houve um exagero por parte da censura, porque nunca preguei que o pessoal pegasse em arma e coisa e tal; a gente só botava pra fora o nosso descontentamento com tudo, não só com o Brasil, mas com o mundo. Fiquei puto da vida quando a gravadora me propôs gravar um outro disco. Disse que não, que o disco ia sair como estivesse; se não havia letras, que as pessoas entendessem. E foi uma surpresa pra EMI Odeon em todos os sentidos, porque o disco vendeu bem, fora a repercussão que causou. Como músico, o “Milagre” foi muito importante, porque foi aí que me larguei na música de uma forma diferente, passei a usar minha voz como um instrumento”. 
Em LP, o projeto gráfico contou com uma bela capa-pôster, algo até então inédito na indústria fonográfica nacional. Dentro, umas páginas avulsas coloridas davam a ficha técnica de cada faixa, sendo assim, “Milagre dos Peixes” trazia a até então mais bem detalhada ficha técnica da indústria do disco no Brasil. Ao todo, quarenta e dois músicos participaram das gravações, como o maestro Radamés Gnatalli, o Quinteto Villa-Lobos, Naná Vasconcelos nas percussões e Wagner Tiso no piano e teclado. 
Quanto às músicas que nele contém, o que pode ser afirmado é que cada uma corresponde a um estilo híbrido, algo que passa longe de uma definição. Lembro de ter escutado “Milagre dos Peixes” pela primeira vez e tê-lo achado um dos discos mais esquisitos. É preciso ouvir algumas vezes com atenção para que ele seja completamente absorvido, mas para quem gosta de coisas complexas e detalhes pouco comuns, é um exercício que compensa (e muito). 
Enquanto “Pablo nº2” lembra uma celebração latina com todas aquelas palmas, coros e violões festivos, ”A Última Sessão de Música” traz barulhos de talheres, conversa e um piano meio infeliz e nostálgico que procura simular um ambiente de fim de festa. Aqueles que se apegam mais ao convencional certamente assimilarão logo de cara “Escravos de Jó” ou a faixa-título, que apesar da ligeira complexidade são mais melodiosas que as demais. O jazz rock “Cadê” é ritmado e também é capaz de pegar fácil. Já “A Chamada”, com seus efeitos vocais remetendo a uma floresta ou algo do tipo, e a orquestra vocal “Carlos, Lúcia, Chico e Thiago” são realmente as músicas mais difíceis, mas ao mesmo tempo são as mais singulares e curiosas. 
“Tema dos Deuses” tem cara de trilha sonora de algum filme épico e faz jus ao nome pela intensidade. Ouvindo essa música dá para compreender que Milton havia previsto anos antes este amadurecimento artístico com canções como “Amigo, Amiga”, que apresentavam uma grande carga de sinestesia mesmo sem tantos recursos à disposição. 
Dividida em três partes, “Hoje é Dia de El Rey” seja talvez o ponto alto de “Milagre dos Peixes”. Baseada na “Suíte do Pescador”, de Dorival Caymmi, a música foi concebida para ser um diálogo entre pai e filho, porém a letra foi vetada na íntegra. A tal conversa era para ser entre Milton como filho e Caymmi como pai, uma pena isso não ter sido gravado. Mas apesar da carência dos versos originais de Márcio Borges, as mudanças ao longo da canção fazem dela uma obra-prima sensorial capaz de falar por si só. 
Em “Sacramento” voltam as letras. Cantada por Milton num espírito meio entristecido, a canção apresenta uma sonoridade tensa, que acaba contrastando bem com a lúdica “Pablo”, a qual Nico Borges ainda criancinha canta uma letra surreal citando pó de nuvem nos sapatos e incêndio nos cabelos. 
Vale afirmar que em Milagre dos Peixes consta um forte experimentalismo, mas há ao mesmo tempo uma certa coesão, ao contrário do contemporâneo e também interessante Araçá Azul (1973), de Caetano Veloso. Talvez por isso Milagre dos Peixes tenha dado tão certo. Milton estava relacionado a um contexto absolutamente propício e tentou a sorte inovando numa época em que isso era levado a sério por um público atento. 
Um ano depois Milton daria continuidade ao projeto lançando “Milagre dos Peixes Ao Vivo”, com shows gravados no Teatro Municipal de São Paulo. Há quem diga que este tenha sido seu auge, o que eu concordo plenamente.
Victor José / Crush em Hi-Fi

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